sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Janela de oportunidade (09/01)

Se Barack Obama quer ter boas relações com o Brasil, basta que se oriente pelo que disse Calvin Coolidge e pelo que fez outro presidente americano, Franklin Delano Roosevelt

É com os dedos cruzados de esperança que a área econômica do governo brasileiro aguarda a posse de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos no próximo dia 20. Quem olha para o Palácio do Planalto e se fia nas aparências pode até enxergar antiamericanismo em certos momentos das relações entre os dois países. Mas quem procura saber da vida real percebe que a reza brava na Esplanada é pela recuperação na economia americana. Nos ministérios que contam, essa é melhor aposta para evitar que o Brasil breque numa intensidade politicamente prejudicial ao governo.

Houve um tempo em que Luiz Inácio Lula da Silva, então na oposição, debitava muitos dos graves problemas nacionais a uma suposta falta de vontade política dos governantes. Por esse critério, os ranzinzas poderiam observar agora que, como falta a Lula vontade política para fazer o Banco Central e o sistema financeiro servirem ao país, o nosso presidente deveria torcer para que Barack Obama consiga movimentar a grande locomotiva do norte.

É também a situação nos demais países latino-americanos, mais dependentes ainda da exportação de commodities e desprovidos de um mercado interno musculoso como o nosso. Daí que, paradoxalmente, o atual cenário de dificuldades políticas regionais esteja a abrir uma ampla janela de oportunidade para os norte-americanos estreitarem suas relações no hemisfério —e reafirmarem a hegemonia . Afinal, se o negócio dos Estados Unidos são os negócios, conceito creditado a um presidente americano, Calvin Coolidge, é possível que a fome esteja mais perto de se juntar à vontade de comer do que indicam as aparências.

Existem é certo os conflitos ideológicos. Mas hoje, como ontem, eles devem ser vistos com alguma reserva. Nos anos 30 do século passado, por exemplo, um vetor progressista no subcontinente era representado pelo nacionalismo apoiado em massas urbanas emergentes. Mais ou menos como agora (talvez não na Bolívia, onde a base de Evo Morales é também rural). No impulso anti-imperialista, correntes socialmente progressistas chegaram no Brasil a inclinar-se em direção à Alemanha de Adolf Hitler, flertando por exemplo com o antissemitismo. O que só mudou quando os Estados Unidos 1) deixaram claro de que lado estavam e que, portanto, o outro lado provavelmente perderia a guerra e 2) ofereceram ao Brasil oportunidades de desenvolvimento. Foi assim que Getúlio Vargas conseguiu fazer nascer a Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras vantagens arrancadas do colega Franklin Delano Roosevelt.

Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas, e certamente saberá extrair o máximo de Barack Obama. Nem o cenário mundial tendente à proteção das economias nacionais desautoriza o otimismo. Para ter sucesso, porém, Lula precisará encaixar a agenda certa.

Um ponto de honra é o etanol. O governo e os empresários brasileiros montaram uma espécie de “invencível armada” dos biocombustíveis, vislumbrando um passeio em mar de almirante, com as velas enfunadas pelo preço explosivo do petróleo e pelo pavor planetário com as mudanças climáticas. Só que as embarcações do álcool da cana-de-açúcar, a exemplo da esquadra de Felipe II da Espanha no século 16, ameaçam ir a pique, pela falta de mercado. Já faltava antes da crise global, quanto mais agora. Depois de investimentos maciços no setor, o cenário brasileiro é de oligopolização acelerada, estoques lá em cima, preços lá em baixo, rentabilidade em risco e empresários de pires na mão rumo a Brasília atrás de socializar os prejuízos.

Se Barack Obama quer ter boas relações com o Brasil nestes dois anos, basta orientar-se pelo que Calvin Coolidge disse e fazer o que Franklin Delano Roosevelt fez.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 5 de junho de 2009

O "soft power", um sucesso latino (05/06)

A decisão da OEA de abrir as portas para uma Cuba que incorpore regras do jogo democrático é um gol e tanto da diplomacia de Barack Obama e Hillary Clinton

Barack Obama fez sucesso ontem no Cairo, mas a América Latina é o lugar onde a opção obamista e hillaryana pelo "soft power" está trazendo resultados mais rápidos e visíveis. A expressão designa o uso preferencial do dinheiro e da conversa, em vez das armas, para ampliar o poder e a influência de um país. Quem utiliza muito é a China. Hillary Clinton empregou o termo quando foi sabatinada antes de assumir o comando da política externa americana. E as duas palavrinhas ficaram como marca de fantasia para diferenciar do antecessor, George W. Bush.

Quais são os objetivos estratégicos dos Estados Unidos na América Latina? Manter a área de influência e evitar que vire plataforma hostil à segurança nacional estadunidense. Causa alguma tristeza nas elites locais, mas desde o fim da Guerra Fria importa menos a Washington se os governos aqui são de direita ou de esquerda, desde que não criem confusão. Desde que a região continue livre das ditaduras, das armas de destruição em massa, do terrorismo e das aventuras bélicas. E desde que nossos mercados estejam bem abertos para os negócios das empresas americanas. Valia com Bush, "amigo de infância" de Luiz Inácio Lula da Silva. Vale com Obama.

Não que Washington tenha estado imune às derrapagens. Como quando saudou alegremente a deposição de Hugo Chávez, apenas para ficar com cara de tacho ao ver o venezuelano de volta ao poder horas depois. Ou quando deu uma mãozinha aos separatistas da meia-lua boliviana. Eram tempos republicanos, de mais ativismo político (e menos pragmatismo) nas relações. Outros tempos.

Agora, com Obama, o ambiente está algo mudado. Mudou o jeito de a Casa Branca se aproximar dos objetivos. Muita conversa, muita simpatia, muita compreensão e a oferta de bons negócios. A força bruta continua disponível, só que não é mais argumento primário de persuasão. Sempre há a possibilidade de o cenário desandar (como na hipótese de uma parceria bélica entre a Venezuela e o Irã), mas colocar esse temor no primeiro plano do teatro diplomático seria um sinal de fraqueza.

E Cuba? A ilha está no limbo desde a Guerra Fria, quando a liderança da Revolução Cubana aderiu ao marxismo-leninismo e se alinhou à União Soviética. Esta semana, a Organização dos Estados Americanos (OEA) abriu as portas para o país de Raul Castro reintegrar-se ao sistema hemisférico, desde que adotadas normas do jogo democrático. Um alívio para Cuba, mas relativo. Teria sido um triunfo completo de Havana se não houvesse condicionantes. Só que há.

Em meio a mais uma gravíssima crise econômica interna, o Partido Comunista quer evitar o debate sobre a alternância no governo. O projeto desenhado na sucessão de Fidel é claro: transferir o poder pessoal dele para o partido, buscando caminhos de progresso e bem-estar que mantenham coesa a base social do regime. Se os Estados Unidos copiam a China no "soft power", Cuba tenta copiar dos chineses um sistema que combina monopólio de poder e prosperidade.

É natural Cuba preferir uma América que lhe dê plenas oportunidades de progredir sem pedir nada em troca. E é também natural que os Estados Unidos adotem uma posição diferente, até para enfraquecer na região a influência dos adversários mais renhidos de Washington. A disputa em torno do fim da exclusão de Cuba da OEA era essa, e foi de certo modo vencida pelos americanos. Que viram prevalecer a tese da "soberania relativa", segundo a qual os assuntos políticos internos de um país não dizem respeito apenas a ele. Assim, Obama pôde operar um recuo histórico sem ter de arcar com custos tangíveis.

Na política, como na guerra, organizar uma retirada sem baixas é uma vitória e tanto. Para as potências, então, costuma ser vital. Que o diga o Império Britânico. Não resta dúvida: com o importante apoio do Brasil, o "soft power" de Barack Obama e Hillary Clinton já é um grande sucesso nas paradas latinas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

De onde vêm os Obama (11/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (11/01/2008) no Correio Braziliense.

O que se discute é a total incapacidade de os políticos, pelo menos, simularem que seus movimentos visam a atender alguma ambição que não a deles próprios

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Ninguém sabe até onde pode chegar a candidatura alternativa de Barack Obama, o senador negro de Illinois que convulsiona a indicação dos Democratas para a sucessão de George W. Bush. Postulantes alternativos costumam ter fôlego limitado nos Estados Unidos, país de establishment forte e enraizado. Desta vez, entretanto, parece que a roseira está a balançar com mais força, para usar a expressão de um conhecido. Vamos comprar a pipoca e o refrigerante e sentar na poltrona para assistir.

Não se sabe até que ponto Barack Obama vai, mas sabe-se com certeza de onde ele vem. O movimento contra o statu quo, encarnado na candidatura dele, vem do cansaço sentido nos Estados Unidos diante dos custos de manter o país como uma superpotência, a única aliás. Nasce também, e talvez principalmente, da exasperação do eleitor americano médio diante de um panorama político em que os representantes do povo dançam a música do poder unicamente de acordo com as próprias conveniências. Sejam eles do governo ou da oposição. Nós, o povo, ora bolas, que se dane.

Impossível não associar com o que vai pelo Brasil nas últimas semanas. É só observar a refrega entre o governo e a oposição em torno dos ajustes orçamentários necessários depois da derrubada da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Vejam se em alguma hora, em algum momento, é possível ter a impressão de que a oposição ou o governo estão em busca de qualquer solução voltada a algum tipo de interesse público. Isso sem falar no Judiciário, cujos próceres só dão as caras para dizer que não têm gordura para cortar.

A impressão é que os nossos políticos e os nossos juízes não estão nem aí para o interesse geral, que só se preocupam com o próprio poder e o próprio conforto. No caso específico dos políticos, o único desejo que transparece é o de atazanar a vida dos adversários. A única obsessão parece ser como chegar à próxima eleição com boas chances de emplacar o seu projeto.

Aqui, um parêntese. Analistas políticos não podem ter o defeito da ingenuidade. Pelo menos não em excesso. Esta coluna não está a tratar dos desejos íntimos dos políticos. O que se discute aqui é a total incapacidade manifestada por eles, neste período mais recente, de ao menos simularem que seus movimentos visam a atender alguma ambição que não a deles próprios.

Eis um dos segredos do político competente. Buscar incansavelmente os próprios objetivos, enquanto simula desprendimento e dá a impressão de que só tem olhos para as preocupações dos outros. Como dizia o ex-presidente Janio Quadros, o político esperto é como um remador: faz muita força para chegar onde quer, mas sempre de costas para o seu verdadeiro alvo.

A oposição conseguiu derrubar um imposto, a CPMF, razoavelmente justo e cujos recursos estavam comprometidos com gastos sociais, especialmente da Saúde. Até hoje, porém, não se sabe qual é a proposta da oposição para financiar a Saúde e os programas sociais, agora que não existe mais o dinheiro da contribuição.

Já o governo diz que vai cortar no Orçamento Geral da União (OGU), mas preservará os investimentos de interesse político do Palácio do Planalto. Enquanto os congressistas admitem que é preciso enxugar, mas não querem nem saber de mexer na verba reservada para as emendas parlamentares individuais.

E a prometida redução de preços decorrente do fim da CPMF, por causa da ausência do efeito-cascata? Evidentemente que não ocorreu. Nem vai ocorrer, ao contrário do que garantiam os especialistas em “planejamento tributário”, que no Brasil virou o outro nome das estratégias de sonegação. Os preços não caíram, mas ficou, é lógico, o abacaxi para o país descascar.

Depois aparece um Barack Obama, como que saído do nada, e deixa todo mundo estupefato. Não há razão para espanto. As condições são propícias. Lá e cá.


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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Razões para a permanência de Gates (27/11)

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, está cotado para ficar no cargo na nova administração. Por quê? Talvez porque as idéias dele tenham mais a ver com Barack Obama do que com George W. Bush. Incrível? Veja este trecho de coluna de Fred Kaplan na salon.com:

If the reports are true that Robert Gates will stay on as President Obama's defense secretary, the move is a stroke of brilliance—politically and substantively. In his nearly two years at the helm of the Pentagon, Gates has delivered a series of speeches on the future direction of military policy. He has urged officers to recognize the shift in the face of warfare from the World War II legacy of titanic armored battles between comparably mighty foes to the modern reality of small shadow wars against terrorists and insurgents. More than that, he has called for systematic adjustments to this new reality: canceling weapons systems that aren't suited to these kinds of wars and building more weapons that are; reforming the promotion boards to reward and advance the creative officers who have proved most adept at this style of warfare; rethinking the roles and missions of the individual branches of the armed services; siphoning some of the military's missions, especially those dealing with "nation building," to civilian agencies. From the start, he knew that he wouldn't have time to make a lot of headway in these campaigns—which, within the military, represent fairly radical ideas. His intent was to spell out an agenda, and lay the groundwork, for the next administration. Now it seems he's going to be in the next administration. And it's a good bet that President Barack Obama will be more receptive to Gates' agenda than President George W. Bush ever was. First, Obama is open to new ideas generally. Second, at his Nov. 25 press conference, Obama said he would direct his new budget director to go over every program, every line item, with an eye toward eliminating those that don't work or aren't needed—and he pointedly included the Department of Defense among the agencies to be audited. In short, Gates might be able to do many of the things that until now he has managed only to advocate.

Leia na íntegra. E leia uma análise sobre o atentado de ontem em Bombaim, na Índia, análise que (acho que) faz sentido à luz do texto de Kaplan.

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sábado, 15 de novembro de 2008

Copia o Obama, Lula, não o Bush (15/11)



Barack Obama falou hoje pela primeira vez como presidente eleito por meio de um vídeo na web, hospedado no YouTube e acessível pelo site da transição, change.gov. Gastou 18,5 segundos para tratar da reunião do G20 e outros 195,5 para dizer o que vai fazer com a economia americana. O G20 ocupa menos de 9% do tempo do "president-elect". Obama não é trouxa. Ele não vai ao G20 misturar-se com os culpados pela crise. E não haveria mesmo por que o sujeito politicamente mais forte hoje no planeta desperdiçar tempo e consumir capital político no conclave dos patos mancos em Washington (saiba o que é um lame duck, um pato manco), reunido pelo mais manco dos patos, um George W. Bush suplicante em defesa da liberdade para os mercados, do livre comércio e contra o protecionismo. Sai dessa, Lula, se é que ainda dá tempo. É como escrevi dias atrás em Cada um por si:

(...) com que tema você acha que Barack Obama vai gastar mais tempo quando puser os pés na Casa Branca (ou até antes): 1) as alternativas para uma nova engenharia institucional planetária das finanças ou 2) os planos para criar empregos nos Estados Unidos?

A resposta de Obama, no vídeo (a transcrição está no change.gov):

Even as we dig ourselves out of this recession, we must also recognize that out of this economic crisis comes an opportunity to create new jobs, strengthen our middle class, and keep our economy competitive in the 21st century. That starts with the kinds of long-term investments that we've neglected for too long. That means putting two million Americans to work rebuilding our crumbling roads, bridges, and schools. It means investing $150 billion to build an American green energy economy that will create five million new jobs, while freeing our nation from the tyranny of foreign oil, and saving our planet for our children. It means making health care affordable for anyone who has it, accessible for anyone who wants it, and reducing costs for small businesses. And it also means giving every child the world-class education they need to compete with any worker, anywhere in the world.

Copia o Obama, Lula, copia. Deixa o Bush para lá.

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Solidários, pero no mucho (15/07)

Zelaya está agora amarrado à iniciativa de paz costa-riquenha, com a Casa Branca no comando dos cordeis. Ou pode jogar o tudo ou nada, em desvantagem estratégica. Fora do poder, do país e com limitada capacidade de mobilização interna

O deposto (e constitucional) presidente de Honduras, Manuel Zelaya, anda inquieto. Se as negociações na Costa Rica não derem certo para ele, promete usar “outros meios” para voltar a ser de fato o chefe do governo. Essa inquietação de Zelaya tem fundamento: a saída para o impasse hondurenho está sendo produzida devagar o suficiente para evitar a volta do status anterior à ruptura. Assim, todos podem solidarizar-se com o mandatário removido do cargo e posto para fora do seu país. Sem que isso implique reconduzir Zelaya ao patamar político que ocupava antes do golpe.

Na prática, o hemisfério está com Zelaya, pero no mucho. Com exceção, naturalmente, dos bolivarianos. Por trás da impressionante unanimidade continental, mora a divisão; num lado, Hugo Chávez e aliados; no outro, Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva e sócios menores. A Venezuela entendeu que uma solução negociada, que inclua bloquear a reforma constitucional tentada por Zelaya “na lei ou na marra”, vai representar a contenção do projeto regional de Chávez. E a balança terminará de pender para o lado de Estados Unidos e Brasil. Ambos interessados numa fórmula que reponha Zelaya na cadeira, mas que também o impeça de levar adiante o plano bolivariano original.

Zelaya está, então, preso a um processo cuja lógica o enfraquece. Isso interessa muito a Washington, que desta vez opera com amplo apoio externo. Quando a Organização dos Estados Americanos (OEA) deu o passo para revogar a diáspora cubana, comentei aqui que o “soft power” de Obama tinha se tornado um sucesso latino. De lá para cá, as coisas só avançaram (ou retrocederam, conforme o gosto do freguês). Em um semestre, a nova administração na Casa Branca conseguiu inverter completamente o jogo. A situação hondurenha é só a face mais visível da virada.

Com Bush na cadeira, Chávez era o vetor em expansão, enquanto países como Brasil e Chile estavam constrangidos a apoiar o venezuelano, dado o confronto geopolítico e retórico com o adversário imperial ao norte. Agora, especialmente depois da fraqueza operacional exibida pela Venezuela na crise de Tegucigalpa, os jogadores regionais já sabem que o centro de poder deslocou-se novamente no sentido de Washington, restando a Caracas a retórica e o nervosismo. A não ser, claro, que Chávez e aliados decidam jogar a carta militar. E que obtenham sucesso na empreitada. Seria um risco e tanto.

Sempre é complicado analisar a História em tempo real, mas, se o desfecho do golpe hondurenho for mesmo a amputação (total ou parcial) do projeto bolivariano de Zelaya, estará se fechando o ciclo aberto na fracassada tentativa de derrubar Chávez em 2002. Ali houve mobilização popular, mas decisiva mesmo foi a posição das Forças Armadas. Que recolocaram Chávez na cadeira quando perceberam que a intenção dos golpistas era implantar uma ditadura.

Também agora os militares, desta vez em Honduras, parecem deter a posição-chave. E Zelaya não está bem nesse campo, desde que tentou sem sucesso decapitar a cúpula do Exército, por ela se opor, com apoio da Justiça e do Congresso, à consulta popular convocada pelo presidente em torno do tema da Assembleia Constituinte.

Qual é a diferença entre os dois episódios, a Venezuela em 2002 e Honduras agora? O respeito à legalidade. Você pode não gostar do rumo por que vai a Venezuela, mas não há acusações críveis de que Chávez tenha rompido a constitucionalidade. Similar é a situação de Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador. Nas condições particulares da América do Sul, continente historicamente infestado por casuísmos e casuístas, aqueles três países conduzem seus conturbados processos políticos dentro da lei. Mas em Honduras foi diferente. Zelaya quis dar o pulo do gato. Sem rede de proteção.

O resultado: Zelaya está amarrado à iniciativa de paz costa-riquenha, com a Casa Branca no comando dos cordeis. Ou pode jogar o tudo ou nada, em desvantagem estratégica. Fora do poder, do país e com limitada capacidade de mobilização interna. E tendo que confrontar Barack Obama. Não será uma escolha fácil para Zelaya.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 17 de janeiro de 2009

Obama seguiu o meu conselho. E o "smart power" de Lula (17/01)

Antes que você suspeite da minha sanidade mental (já que blogueiros são seres especialmente vulneráveis à megalomania), note que a primeira metade do título deste post deve ser lida como uma piada. Eu não resisti, quando vi esta notícia no estadao.com.br:
    Obama manterá Sobel na embaixada no Brasil, diz 'Post'

    AE/AP - Agencia Estado - WASHINGTON - O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, prorrogou por um período não definido a permanência do embaixador dos EUA no Brasil, Clifford M. Sobel. A informação foi atribuída a um importante membro do círculo de amigos do presidente George W. Bush e publicada hoje pelo jornal The Washington Post. A publicação não aponta as razões de Obama para manter Sobel. Aparentemente isso se deve ao desejo do futuro presidente de que o embaixador siga em suas gestões com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem o democrata espera trabalhar em um plano energético regional. Ex-dirigente do Partido Republicano, Sobel foi peça-chave no trabalho da administração no entendimento de Lula e Bush no setor dos biocombustíveis. Em uma reunião há dois anos em Washington, ambos concordaram em empreender um plano piloto de ajuda ao desenvolvimento de tecnologia em vários países do hemisfério ocidental. Sobel, a quem o Post identifica como "um importante doador" da campanha de Bush, também foi embaixador na Holanda.
Leia o resto da reportagem. Vamos resumir. Sobel foi um "importante doador" da campanha presidencial de Bush. Com a eleição do amigo, virou embaixador no Brasil. Onde articulou a agenda bilateral do etanol. Agora, segundo o "Post", Obama deve manter Sobel no cargo. Precisa explicar mais? Se não entendeu, leia de novo desde o começo. Num artigo de uma semana atrás (Janela de oportunidade), eu sugeri ao novo chefe da Casa Branca que nas relações com o Brasil combinasse os ensinamentos deixados por dois presidentes americanos: Calvin Coolidge e Franklin Delano Roosevelt. Ao primeiro atribui-se o esclarecimento de que o negócio dos Estados Unidos são os negócios. O segundo baixou aqui em 1941 e, em troca de dar o impulso decisivo à nossa siderurgia, conseguiu fazer o Brasil parar de flertar com o nazi-fascismo. O presidente da época, Getúlio Vargas, ponderou bem a situação e concluiu que só tinha dois cenários possíveis pela frente, mutuamente excludentes: ou fechava com Roosevelt ou o Brasil seria invadido pelos Estados Unidos, dada a nossa posição estratégica no Atlântico. Como Getúlio era um gênio da política, em vez de optar pelo filofascismo e por terminar pendurado num poste, escolheu o lado certo e ainda levou de troco, entre outras coisas, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Agora, releia um trecho do que escrevi aqui em Janela de oportunidade:
    Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas, e certamente saberá extrair o máximo de Barack Obama. Nem o cenário mundial tendente à proteção das economias nacionais desautoriza o otimismo. Para ter sucesso, porém, Lula precisará encaixar a agenda certa. Um ponto de honra é o etanol. O governo e os empresários brasileiros montaram uma espécie de “invencível armada” dos biocombustíveis, vislumbrando um passeio em mar de almirante, com as velas enfunadas pelo preço explosivo do petróleo e pelo pavor planetário com as mudanças climáticas. Só que as embarcações do álcool da cana-de-açúcar, a exemplo da esquadra de Felipe II da Espanha no século 16, ameaçam ir a pique, pela falta de mercado. Já faltava antes da crise global, quanto mais agora. Depois de investimentos maciços no setor, o cenário brasileiro é de oligopolização acelerada, estoques lá em cima, preços lá em baixo, rentabilidade em risco e empresários de pires na mão rumo a Brasília atrás de socializar os prejuízos.
Enquanto vizinhos e um pedaço da esquerda brasileira se esgoelam no antiamericanismo, Lula dá um jeito de que os bons negócios com os americanos continuem caminhando bem. É o preço (barato) para que o Brasil prossiga equilibrando o jogo com os "radicais" (na terminologia preferida dos gringos), os daqui e os das redondezas. A nova secretária de Estado, Hillary Clinton, disse na sabatina dela no Senado (de lá) que, doravante, o governo americano vai ser mais esperto, um poder inteligente, o "smart power". Desculpe Mrs. Clinton, mas em termos de esperteza, de "smart power", enquanto a senhora está se dirigindo ao galinheiro o presidente do Brasil já está voltando com o omelete. Como escrevi quase dois anos atrás, quando Bush nos visitou (As crianças estão brincando lá fora):
    Por enquanto, fica a impressão de que as crianças obtiveram permissão para brincar de anti-imperialismo no quintal, enquanto os adultos conversam na sala sobre grandes negócios.
Santa mudança ortográfica. Agora eu sei, com certeza, que "anti-imperialismo" tem hífen. Desdenhar da reforma é uma roubada. É a minha segunda reforma (a primeira foi em 1971), e vou tentar me adaptar rapidinho. Outra roubada? Ler só as seções de política internacional, sem ler as de economia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

As variáveis de Obama (13/10)

Eis um detalhe interessante da gestão do norte-americano: no governo, tenta fazer o que dizia na campanha que iria fazer se chegasse ao governo. É uma atitude pouco convencional entre políticos

As pesquisas divergem entre si, mas o fato é que Barack Obama enfrenta dificuldades políticas. Sua popularidade não anda mesmo uma brastemp. A lua de mel pós-eleitoral acabou faz tempo, e ele tem que encarar a realidade. A economia sai muito lentamente da crise, o Afeganistão parece cada vez mais um atoleiro e o viés liberal (palavra que os americanos usam para dizer “esquerdista”) do governo acendeu todos os fogos conservadores no grande país do norte. 



Em compensação, o capital político de Obama junto aos fiéis parece razoavelmente intocado. Nos Estados Unidos e fora dele. Com poucos meses na cadeira, o presidente americano já ganhou o Nobel da Paz. Por mais que haja reclamações na franja radical à esquerda, a figura política de Obama continua ligada aos elementos simbólicos que ele mobilizou na sua campanha liberal para chegar à Casa Branca. 



Eis um detalhe interessante: uma vez no governo, ele tenta fazer o que dizia que iria fazer se chegasse ao governo. Atitude pouco convencional entre políticos. Normal é o sujeito mobilizar sentimentos quentes antes da eleição e depois fazer uma administração morna, em nome do pragmatismo e da governabilidade. No poder, deslocar-se para o centro.

Barack Obama é um presidente eleito pelos urbanos, pelos instruídos, pelos negros, hispânicos e judeus, pelas mulheres, pelos gays, pelos pacifistas. Pelos ambientalistas. Nomeou uma mulher hispânica para a Suprema Corte, é simpático a medidas contra o aquecimento global e avança na igualdade de direitos para os homossexuais. Na política externa, procura aplicar o princípio da não intervenção. Surpresas? Nenhuma. 



Mas aonde esse comportamento levará o presidente americano? Ou, em outros termos, quanto tempo ele resistirá à pressão centrípeta do establishment? 



Vai depender dos resultados. No Afeganistão, seu abacaxi mais áspero, o presidente está espremido entre duas opções. Uma é apostar no isolamento da Al Qaeda e em algum compromisso com o Talibã. É a saída defendida pelo vice-presidente, Joe Biden. A cúpula militar é contra, prefere aumentar o esforço em homens e armas para derrotar o Talibã. Obama disse na campanha que faria tudo para ganhar a guerra. Seu poder terá grande dificuldade de conviver com uma possível percepção pública de derrota.

Já na economia a equação parece mais simples. Uma hora os Estados Unidos vão voltar a se expandir bem, e é provável que Obama enfrente a campanha reeleitoral em posição confortável no quesito. Os chineses fazem a parte deles, dando seu jeito de crescer 8% este ano e projetando um belo 2010. E o resto do mundo vai atrás. Uns mais rapidamente. Outros como o Brasil, constrangido pelos problemas estruturais no crédito, mais lentamente. Mas o pior parece mesmo já ter passado.

Com as coisas entrando nos eixos na economia, e se Obama conseguir salvar a face no Afeganistão, restará a reforma da Saúde. O governo democrata deseja avançar na universalização, enquanto os republicanos atacam o plano como “socializante”. Se fosse no Brasil, a acusação renderia votos, mas nos Estados Unidos tira. Pelo menos mais tira do que dá. Este ponto acabou virando uma disputa puramente política. Se não conseguir passar uma nova lei sobre o tema no Congresso, no qual tem ampla maioria, Obama terá transmitido uma imagem de fraqueza. 



Afeganistão, economia, reforma da saúde. Guerras que Obama precisa ganhar. Presidentes americanos fracos costumam ter muito prestígio fora dos Estados Unidos. Mas quem vota são os americanos. Se Obama chegar a 2012 politicamente enfraquecido, nem toda a simpatia mundial será suficiente para tirá-lo da zona de risco político. 



Discretos

A participação de Cuba na crise hondurenha vem sendo bem mais discreta do que, por exemplo, a do Brasil ou da Venezuela. O governo de Raul Castro está em outra. Aposta as fichas na normalização das relações com os Estados Unidos e, também por isso, não chega a ser fã de carteirinha do movimento bolivariano liderado por Hugo Chávez. 



O obstáculo maior é que Washington terá imensa dificuldade para vender internamente qualquer acordo que não implique a plenitude das liberdades democráticas em Cuba, com a possibilidade de alternância de poder na ilha. Coisa de que o Partido Comunista não quer nem ouvir falar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Força relativa (25/11)


Quando um país decide se meter na vida de outro sua voz será ouvida na medida dos meios à disposição para fazer valer o que acha.

Representantes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China) emitiram ontem em Moscou um comunicado conjunto sobre a situação no Oriente Médio e Norte da África.

É movimento com significado político claro: buscar algum protagonismo em cenário até agora dominado pelos Estados Unidos e aliados mais orgânicos.

O documento reafirma alguns posicionamentos conhecidos, como a oposição a ingerências externas na crise síria e a novas sanções unilaterais ao Irã.

As posições não são novas mas a reafirmação vem num momento delicado.

Pois na Síria as condições amadurecem para um desfecho à Líbia.

E Estados Unidos e Europa escalam pressões contra Teerã, após a Agência Internacional de Energia Atômica ter atestado o que já se sabia: que o "caráter pacífico" do programa nuclear iraniano é para inglês ver.

Os Brics têm lá seu poder de fogo no terreno diplomático, mas enfrentam uma dificuldade prática. Não parecem contar com as cartas decisivas na manga.

Se Estados Unidos e Otan mostram disposição crescente para ações militares, é impensável forças russas, chinesas, indianas ou brasileiras em combate na defesa da tirania cleptocrática de Bashar Assad ou do condomínio nuclear entre Mahmoud Ahmadinejad e os aiatolás.

No limite, é disso que se trata. Quando um país decide se meter na vida de outro sua voz será ouvida na medida dos meios à disposição para fazer valer o que acha.

Fora isso, é a diplomacia pela diplomacia. Sujeita à ameaça permanente de atropelamento pela vida real.

O clima entre Brics e Estados Unidos/Otan já esteve melhor.

Aqueles consideram que estes usaram a resolução do Conselho de Segurança da ONU para impor pela força a mudança de regime na Líbia. Quando a ideia era só impedir que Muamar Gadafi massacrasse a oposição.

A Rússia anda inquieta com o escudo antimísseis projetado pelos Estados Unidos na Europa Oriental. Washington diz que é para conter o Irã, mas Moscou enxerga como ameaça a si.

E ameaça apontar mísseis para o sistema antimísseis. Bem ali ao lado da Polônia.

E a China não deve ter ficado especialmente feliz com a explícita intenção americana de reforçar posições no Extremo Oriente.

Barack Obama não poderia ter sido mais claro a respeito quando anunciou o estacionamento de marines na Austrália.

Novo

Mas pelo menos num aspecto a posição divulgada ontem pelos Brics aproximou-se do que defende Washington.

Tomar as fronteiras pré-1967 apenas como referência para o desenho dos limites de um eventual Estado Palestino, e não como linhas pétreas.

O texto é claro. "Os Estados dos Brics apoiam a retomada nas negociações israelense-palestinas para o estabelecimento de um Estado Palestino independente, viável e territorialmente contíguo, com plena soberania no interior das fronteiras de 1967, com trocas territoriais mutuamente acordadas e com Jerusalém Oriental como sua capital."

"Trocas territoriais mutuamente acordadas" foi precisamente a carta nova que Barack Obama colocou na mesa quando discursou meses atrás para relançar a estratégia americana para o conflito.

Uma novidade que nunca constara das posições oficiais brasileiras. Ainda que o Brasil sempre tenha enfatizado, como lembra o Itamaraty, a necessidade de negociações para solucionar os impasses centrais entre israelenses e palestinos.

O Itamaraty argumenta que comunicados conjuntos não definem políticas nacionais, mas o texto de ontem dos Brics tem originalidade quando analisado à luz do que o Brasil vem dizendo desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu a Palestina nos limites pré-1967.

A posição brasileira estrita é inaplicável. Um exemplo: pelas linhas pré-1967 o Muro das Lamentações, referência sagrada para os judeus, ficaria sob controle árabe-palestino. E é só um exemplo. Há também novas realidades demográficas a considerar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (25) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Mudança de música (19/12)

É notável que antes mesmo de ir morar na Casa Branca Barack Obama esteja a receber de Luiz Inácio Lula da Silva tratamento mais duro e mais confrontante do que o dispensado a George W. Bush em seis anos de convivência. As celebrações em torno de Cuba, na Bahia esta semana, têm tudo a ver com os compromissos históricos de Lula e do PT (e também com a linha desenvolvida pelo Itamaraty nas quatro últimas décadas). Mas o fato é que Lula esperou Bush virar um “lame duck” (pato manco, político que não manda nada) antes de dar o passo decisivo para reintegrar Havana ao hemisfério.

Reabsorver Cuba na comunidade de nações latino-americanas é um movimento lógico e há muito aguardado, no contexto de uma estratégia de integração regional. Estratégia aliás essencial para o Brasil. Principalmente agora, quando o protecionismo ganha musculatura e o livre comércio internacional perde ibope. Vide o fracasso das tentativas, impulsionadas em grande medida por Lula, de reanimar a moribunda Rodada Doha da Organização Internacional do Comércio (OMC).

Vivêssemos outros tempos e o baile diplomático da Costa do Sauípe teria transcorrido sob os acordes de uma orquestra diferente. Ou pelo menos com uma música mais suave. Lula passou seis anos alimentando boas relações com Bush. E gabando-se delas. Antes da eleição americana, não foram poucos os sinais saídos do Planalto apontando que uma vitória republicana teria, em termos práticos, vantagens comparativas para o interesse nacional brasileiro. A “simpatia” palaciana por Obama só veio a público, tardia e repentinamente, quando a vitória do democrata se desenhou com sinais mais nítidos.

Ouço aqui e ali que Lula anda desconfortável com a importância apenas relativa que recebe do futuro ocupante da Casa Branca. E que teria ficado incomodado porque em vez de receber um telefonema do recém-eleito precisou ligar para Washington. Só no retorno pôde falar com o “president-elect”. Foi um mau sinal. Sinal amarelo. Se Lula interpretou assim, interpretou bem.

Ao longo de seis anos, Lula partilhou com Bush certas teses, ainda que com graus diferentes de convicção. Uma tese comum era a fé no comércio mundial como alavanca para o desenvolvimento, especialmente nos países menos abastados. A estratégia diplomática do governo brasileiro orientou-se por aí. A dança para introduzir o nosso etanol no mercado americano foi, por exemplo, o foco principal da visita de Bush ano passado ao Brasil. Imaginava então o Planalto que a emergência das preocupações com o aquecimento global seria a oportunidade de ouro para substituirmos, em grande parte, a gasolina que abastece os carrões na superpotência.

Isso rendeu a Lula atritos com Hugo Chávez e Fidel Castro, defensores da tese de que plantar mais combustível significa, globalmente, produzir menos comida. Levou também o Brasil a relativizar na OMC sua tradicional aliança com os demais emergentes para, num movimento arrojado, acercar-se dos desenvolvidos em busca de um consenso que afinal fracassou. A cena mais recente do enredo deu-se agora em Washington, na reunião do G20 convocada por Bush. Quando o Brasil subscreveu os dogmas sobre a liberdade comercial como remédio por excelência para superar a crise econômico-financeira desencadeada pelos créditos podres americanos.

Mas Obama parece não estar nem aí para esse conjunto de idéias. Até porque chegou ao poder derrotando-as. Hoje em dia ele leva jeito de andar mais preocupado com a proteção dos empregos americanos e com a regulação do indomável mercado financeiro. Nem os projetos para combustíveis alternativos ajudam. Os Estados Unidos querem auto-suficiência nisso. Não pretendem trocar a dependência da gasolina árabe, persa e venezuelana pela dependência do etanol brasileiro.

Daí por que talvez o Brasil tenha percebido a necessidade de ajustar também a sua posição. O que se dá com um coeficiente de atrito inusitado. É sintomático, por exemplo, que o chanceler Celso Amorim seja um dos dois atores de relevância mundial que criticaram frontalmente Barack Obama antes mesmo da posse.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 7 de julho de 2009

Soberania Relativa (07/07)

George W. Bush deve estar sorrindo no Texas, enquanto Barack Obama, a pedido inclusive de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, faz uma faxina na biografia do antecessor

Falhou a primeira tentativa de reinstalar no cargo o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya. Ao que parece, por falta de apoio nas Forças Armadas e demais instituições de estado. O caminho quase insurrecional ensaiado por Zelaya no domingo exige um consenso social bem amplo. Ou um grau razoável de apodrecimento e divisão dos órgãos estatais detentores do monopólio da força. De preferência as duas coisas.

Mas a situação pode mudar rapidamente, dada a precariedade do equilíbrio. A estratégia agora dos partidários de Zelaya é aprofundar o isolamento internacional do país, inclusive com mecanismos de bloqueio econômico. Contra Cuba o recurso não tem funcionado. Só que Honduras não é Cuba. Vamos aguardar.

Merece registro que os aliados continentais de Havana, inclusive o Brasil, peçam aos Estados Unidos pelo isolamento de Honduras. É a legitimação do papel hegemônico de Washington, contra o qual a esquerda latino-americana se batia, quando interessava. O demonizado George W. Bush deve estar sorrindo no Texas, enquanto Barack Obama, a pedido inclusive de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, faz uma faxina na biografia do antecessor.

Outro subproduto da inédita unidade continental em torno de Zelaya é a criação de um ambiente mais confortável para o Senado brasileiro votar a adesão da Venezuela ao Mercosul. O assunto arrasta-se, mas desta vez parece encontrar uma conjuntura propícia. Um reticente era José Sarney (PMDB-AP). Enrolado como está na série de revelações assombrosas sobre o dinheiro da Casa, ele não tem mais condições políticas de recusar qualquer orientação que venha do Palácio do Planalto.

E a resistência da oposição? Vem sendo debelada pela forte movimentação empresarial a favor da absorção de Caracas no bloco. A temperatura poderá ser medida esta semana, quando a Comissão de Relações Exteriores realiza duas audiências públicas para debater o texto do protocolo de entrada da Venezuela ao Mercosul (PDS 430/08).

Prevê-se inclusive a participação de representantes da oposição venezuelana. O que numa situação normal soaria bizarro, intromissão indevida na política interna do vizinho. Neste ambiente de relativização da soberania dos países, soa aceitável.

A situação hondurenha é preocupante também pela possibilidade de a coisa degenerar em mais violência. Ou mesmo num conflito militar contra países bolivarianos. Espera-se que tudo se resolva pacificamente, com a volta de Zelaya ao cargo e a realização de eleições presidenciais este ano. Nas quais Zelaya não poderá concorrer, se a Constituição estiver em vigor. Trata-se inclusive de cláusula pétrea.

Ao tentar regressar domingo nos braços do povo, Zelaya fez um movimento não apenas para retornar à Presidência, mas também para conseguir superpoderes, que eventualmente lhe permitiriam dissolver o Congresso e decapitar as Forças Armadas e o Judiciário. Superpoderes que na prática o habilitariam a rasgar a Constituição usada para depô-lo. Nada impede que ele continue tentando, mas é provável que agora sua volta tenha que ser negociada sob o protagonismo de Obama, e não mais de Chávez.

Insegurança

O governo transmite insegurança na maneira como enfrenta a gripe causada pelo vírus AH1N1. Parece faltar uma avaliação realista sobre o alcance da propagação. Quando a epidemia chegou a nós, as autoridades recomendaram encaminhar os casos suspeitos aos centros de referência. O que lotou os centros de referência. Ou o governo subestimou o problema ou a orientação estava errada. Agora, as autoridades sanitárias pedem que as pessoas usem toda a diversidade de portas de entrada do sistema (médicos, postos de saúde), para não sobrecarregar as unidades especializadas. Será que o sistema está preparado?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Nós e o cansaço da superpotência (08/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (08/01/2008) no Correio Braziliense.

Decadência material combinada a angústias existenciais, tudo indica que o vento contestatório é sintoma de que vem aí um ciclo isolacionista na política americana. “America first”, como diria Mike Huckabee

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O vento anti-establishment começa a soprar com força na sucessão presidencial americana. Hoje é dia de decisão nas primárias de New Hampshire. Uma nova derrota deixará a democrata Hillary Rodham Clinton em situação ainda mais difícil. Aritmeticamente, ela vai bem. O problema é que Barack Obama ameaça virar uma onda. Do lado republicano, a antes aparentemente favorita candidatura de Rudolph Giuliani dá sinais crescentes de debilidade. O sonho de uma disputa “novaiorquina” vai ficando cada vez mais distante e improvável.

Se é verdade que os americanos olham o resto do mundo com óculos que caricaturam a realidade, a recíproca também vale. Barack Obama é negro de pai africano e Mike Huckabee é o favorito dos evangélicos. E daí? Para além dos arquétipos ou dos estereótipos, é preciso saber quais fenômenos da sociedade americana alimentam o desejo de mudança e a pressão anti-establishment. Uma pressão que se manifesta, paradoxalmente, após quase duas décadas de prosperidade econômica. É como se a história estivesse a pregar uma peça no ex-presidente William Jefferson Clinton. Cuja vitoriosa campanha à Casa Branca em 1992 imortalizou o “É a economia, estúpido”, de seu assessor James Carville.

Quais são as raízes da contestação nos Estados Unidos? Uma pergunta a fazer é se a sociedade americana não estaria dando sinais de desagrado e esgotamento diante do custo de seu país manter-se como superpotência. Depois do ataque às torres do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, a explosão dos gastos militares na gestão republicana aposentou a política de responsabilidade fiscal posta em prática pelos democratas. E a bomba-relógio dos déficits gêmeos (externo e fiscal) continua seu tique-taque, com a previsível conseqüência sobre o dólar, cada vez mais fraco.

Em resumo, os Estados Unidos são hoje um país no qual: 1) os bens tangíveis são preferivelmente importados, 2) a sociedade industrial vai sendo deslocada pela sociedade de serviços, 3) a abolição do serviço militar obrigatório empurrou a defesa da pátria para as mãos dos filhos dos excluídos — especialmente negros e latinos, 4) se vende como objeto de desejo um modo de vida inviável — antes de mais nada pelas incertezas sobre as fontes de energia e pelos custos ambientais envolvidos e 5) a abundância e a fartura convivem com a incapacidade crônica de solucionar questões primárias relacionadas ao bem-estar, como, por exemplo, o direito a uma saúde pública universal e de qualidade.

Analistas respeitados apontam que os ventos anti-establishment sopram também a partir da insatisfação popular com os sinais de declínio do poder nacional. Há dúvidas e frustração sobre os custos e os resultados das guerras no Afeganistão e no Iraque, sobre a incapacidade de desnuclearizar o Irã e a Coréia do Norte, sobre a fragilidade financeira desencadeada pela crise do mercado imobiliário, sobre o alto preço do petróleo, etc.

Decadência material combinada a angústias existenciais, tudo indica que o vento contestatório é sintoma de que vem aí um ciclo isolacionista na política americana. “America first”, como diria Mike Huckabee. Perspectiva de risco crescente para governos e grupos políticos que apostam no suporte dos Estados Unidos para consolidar e perpetuar projetos de poder. As dificuldades de Pervez Musharraf no Paquistão são apenas a ponta de um iceberg global.

E o Brasil? Diante desse cenário, será prudente afastar a latente tentação de voltar as costas aos vizinhos e colocar as fichas no aprofundamento das relações bilaterais com Washington. É uma cantilena atlantista que volta e meia ressurge das entranhas do Itamaraty, permanentemente consumido pela luta interna entre terceiro-mundistas e americanófilos. Que estes últimos nos perdoem, mas o mar não está para o peixe que tentam nos vender.

Melhor a gente se entender bem com a vizinhança e aprofundar a integração comercial, política e militar. Vamos olhar legal a nossa casa e assumir com responsabilidade nosso papel de potência regional, cuidando sempre de não melindrar coadjuvantes como a Argentina. A América do Sul é um continente livre do terrorismo e das armas de destruição em massa. Um continente que cresce em paz e na democracia. Preservemos esse statu quo. Parece a atitude mais prudente e adequada ao que parece vir por aí, no grande irmão do norte.


Acrescento no blog: para uma interessante e bem-humorada caracterização dos candidatos à eleição nos Estados Unidos, vale ler o post Eleições americanas: um ABC, do Idelber Avelar, no blog O Biscoito Fino e a Massa.

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

O crepúsculo do campeão (29/07)

Barack Obama está a um passo de colocar o freio em Hugo Chávez. Sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos e dizendo palavras doces

Faz um mês que o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto e expelido do país. Suas tentativas de voltar ao poder nos termos dele próprio têm esbarrado na falta de apoio efetivo, interno e internacional. Internamente, o governo recém-instalado parece controlar as rédeas do Estado. No resto do mundo, o suposto consenso em torno da volta incondicional de Zelaya é apenas suposto.

O caminho oferecido pelos Estados Unidos para o retorno à normalidade é humilhante para o mandatário literalmente defenestrado. Ele teria que desistir da consulta popular que convocou para pressionar pela Assembleia Constituinte. E teria que dividir poder com os algozes: a cúpula do Judiciário, o Congresso e as Forças Armadas. Estaria impedido, por exemplo, de demitir o comandante do Exército, que o depôs. Ficaria na prática sob tutela. Dos inimigos locais e da Casa Branca. Assim seria o seu patético epílogo.

Como Zelaya tampouco mostra força para voltar “nos braços do povo” e remodelar a República ao seu feitio, chegou-se a um impasse. O problema é que o relógio trabalha contra. O poder tem magnetismo. E o tempo favorece a acomodação. Zelaya teria que criar uma alternativa política, se necessário pela força. Mas, convenhamos, ele não leva jeito. Zelaya não é um Fidel Castro. Nem mesmo um Hugo Chávez.

Zelaya acena com a resistência em outros termos, não propriamente pacífica. Veremos. Trata-se de um oligarca que certo dia engatou seu vagãozinho no trem da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas, liderada pela Venezuela) e se deixou encantar pela perspectiva de reformar a Constituição hondurenha (a que proíbe o sujeito até de pensar em reeleição). Sem porém ter os votos ou os meios para tal. Só que os adversários foram mais rápidos e eficientes. Agora é ele quem corre atrás do prejuízo.

Que não é só dele. Por enquanto, o maior ameaçado de sofrer uma derrota retumbante é Chávez —que nesta altura deve estar querendo arrancar o couro de Zelaya pela trapalhada e pela incompetência. O venezuelano está como o boxeador quase invicto (perdeu uma, por pontos, no primeiro referendo pela reeleição ilimitada, mas retomou o cinturão na revanche), quando enxerga, espantado, o perigo de sofrer o primeiro nocaute, numa luta que antes de começar parecia fácil. Uma espécie de Myke Tyson enrolado com a surpresa James “Buster” Douglas, naquele hoje distante, mas inesquecível, fevereiro de 1990 em Tóquio.

Todo campeão tem um encontro marcado com o desafiante que irá derrotá-lo. Por enquanto, Chávez não vem sendo páreo para a dupla Barack Obama/Hillary Clinton. Ela é uma profissional. Ele, um mister simpatia. Os Estados Unidos estão a um passo de colocar o freio em Chávez. E sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos, dizendo palavras doces e celebrando a “unidade hemisférica”.

E acercando-se de Havana. A evolução das relações entre Cuba e Washington parece irreversível —com todos os riscos que a palavra carrega no jornalismo. Será que Raul Castro vai comprometer o quase noivado com Obama só para oferecer uma saída honrosa para Chávez, sem nenhuma garantia prática de que a coisa irá vingar? Ora, se nem Luiz Inácio Lula da Silva está nessa...

É a volta da política do big stick. Fale macio e carregue um grande porrete. No pós-golpe de Honduras, e a não ser que Zelaya entre em Tegucigalpa à frente de sua revolução bolivariana, os adversários continentais do chavismo já saberão que a invencibilidade do campeão de Caracas encontrou o seu crepúsculo.

Aprendeu com Maluf

Atolado em confusões, a partir de certa altura Paulo Maluf desenvolveu um método. Os jornalistas perguntavam uma coisa e ele respondia sobre outro assunto. O expediente está sendo útil agora, nas barricadas que defendem o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

E o ato secreto que nomeou o então namorado da neta? Ora, todo mundo nomeia, trata-se da ocupação de espaço político. Claro, presidente. Nomeia mas publica. A pergunta não é sobre a nomeação, é por que a esconderam!

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

O mensageiro e seu risco (02/04)

Como na épica abertura de “Gladiador”, quando um conflito acirra demais, aumenta muito o perigo para o portador de mensagens entre as partes

O relógio está correndo, as grandes potências apertam o cerco ao Irã. O mundo percebe, progressivamente, o lugar central do assunto na agenda de Barack Obama. Os Estados Unidos trabalham com afinco para isolar e neutralizar o regime persa, tido por Washington como elemento desestabilizador da influência americana e ocidental no mundo árabe.

Do outro lado, Teerã procura reforçar a imagem de principal inimigo de Israel, para evitar o isolamento.

Na Guerra do Golfo, quase vinte anos atrás, Sadam Hussein tentou algo parecido. Enquanto sofria o ataque da coalizão liderada pelos Estados Unidos, lançava mísseis sobre Israel. Que não revidou. Se revidasse, talvez inviabilizasse a aliança militar entre americanos, sírios, egípcios e sauditas. Tinha mais gente, mas esses eram os atores principais.

O conflito estourou porque o Iraque invadiu o Kuait, mas se Sadam conseguisse arrastar Israel para a confusão transformaria a coisa numa batalha entre o Islã e o ocidente -e seu aliado sionista. Bem menos complicada de travar. E talvez o iraquiano não tivesse terminado seus dias como terminou.

O establishment de Teerã investe agora em algo parecido. O discurso antissionista está a maquiar a estratégia de hegemonia sobre os vizinhos árabes. É um amálgama de sentimentos antissemitas e aspirações anticoloniais. O caldo de cultura clássico do nacionalismo na região desde pelo menos os anos 30 do século passado.

O Irã procura embalar suas aspirações nucleares no papel de presente do anti-imperialismo. Mas enfrenta um desafio. Como convencer os arredores de que, antes de colocar Washington de joelhos o poderio nuclear iraniano não servirá para impor o diktat de Teerã nas vizinhanças?

Até porque a segunda missão exigiria bem menos ogivas e mísseis, se comparada à primeira.

Um potencial Irã nuclear também parece preocupar crescentemente russos e chineses. Cada um às voltas com seus próprios movimentos separatistas -e terroristas- de extração islâmica. E a França está alinhada no processo. Talvez pelo temor de ver o Líbano de joelhos diante do Hezbollah. Mas não só.

O mais notável nesses movimentos é a convergência de rivais, impulsionada pela agressividade tática do presidente americano. Para atrair os russos, cedeu no projeto do escudo antimísseis na Europa do Leste e avançou no desarmamento bilateral. Para afagar os chineses, deu novos sinais de compromisso com a integridade territorial da China.

Barack Obama constrói tijolo a tijolo o edifício de duras sanções contra o Irã. Quem acompanhou a determinação do presidente americano para aprovar no Congresso a reforma do sistema de saúde tem motivo para acreditar que ele pode obter o apoio político necessário na ONU.

Com que cara Obama disputará a reeleição em 2012 se até lá os aiatolás tiverem construído a bomba, ou dominado a tecnologia para construí-la? O presidente democrata será desossado pelos adversários republicanos, e sem anestesia.

Eis a diferença das situações de Obama e Luiz Inácio Lula da Silva. O Brasil está nesta a custo zero. Se a estratégia do "puro diálogo" defendida pelo chanceler Celso Amorim permitir ao Irã “comprar tempo”, e com isso chegar ao domínio dos meios para ter um artefato nuclear, o Brasil sempre poderá culpar os outros e dizer que tudo deu errado pois nossos conselhos não foram ouvidos. Seria típico.

Ou, quem sabe?, pedir desculpas pelo erro de avaliação. Isso seria atípico.

Ambas saídas retóricas, bem ao gosto da nossa política. Infelizmente porém, não serviriam para salvar o pescoço dos líderes de outros países mais ameaçados, direta ou indiretamente.

Sobre pescoços, aliás, talvez seja conveniente recordar a épica abertura de “Gladiador”, de Ridley Scott. Quando o conflito acirra demais, aumenta bastante o risco de o portador de mensagens entre as partes acabar mal.

Lula vai a Teerã. Pode ser bom, pois nunca é demais conversar. Quem sabe o Itamaraty devesse tomar certos cuidados, para evitar uma situação sem saída, para evitar que nosso presidente seja amarrado a gestos e simbologias irreversíveis.

Nunca é bom entrar numa fria.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (02) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 18 de março de 2011

A volta do pêndulo (18/03)

Dilma apenas governa de acordo com o espírito do tempo. Como mostrará a visita de Barack Obama ao Brasil. A turma é a mesma, as convicções são as mesmas, mas as circunstâncias, feliz ou infelizmente, mudaram muito

Causa algum incômodo no PT e arredores o ajuste a que o novo governo submete o discurso mais visível da política externa brasileira.

Também pudera. No longo período eleitoral pré-2010 -que tomou todo o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva- o situacionismo cultivou como elemento distintivo a rivalidade retórica com os Estados Unidos.

Que o diga Chico Buarque de Holanda, protagonista de uma inesquecível passagem na campanha de Dilma Rousseff.

A linha foi rapidamente descartada desde que governar se tornou missão prioritária. Houve também a constatação de que certos movimentos diplomáticos do governo anterior deveriam ser revistos, por terem trazido mais ônus que bônus.

O exemplo emblemático são as relações com o Irã. Num certo momento o Brasil considerou que poderia obter dividendos de uma eventual mediação em torno do programa nuclear iraniano.

Mas o que era para ser dividendo virou prejuízo. Por uma precipitação, talvez pelo desejo excessivo de protagonismo. Uma foto infeliz. Uma ilusão dolorosa.

Tanto que Dilma cuidou rapidamente de seguir outro rumo, tomando como ponto de apoio o tema dos direitos humanos.

É normal os países ajustarem a política exterior conforme as circunstâncias. Um bom exemplo foi a oscilação de Getúlio Vargas entre o nazifascismo e os aliados quando os rumos da Segunda Guerra Mundial ainda não estavam definidos.

A alma do Estado Novo era mais alinhada com a Berlim de Adolf Hitler. E num certo momento o Brasil inclinou-se para o Eixo.

Mas a combinação de fatos militares, conveniências econômicas e um faro político inigualável ajudou Vargas a acabar pendendo para o lado certo e vencedor.

Getúlio Vargas teve sorte. Ele mesmo pôde dar meia-volta e deixar para lá o namorico com o campo de Hitler e Benito Mussolini. Sorte de ditador, pois não havia então alternância no poder. Vargas só largou a cadeira bem depois, deposto após a guerra.

Lula não teve a sorte de Getúlio, não continua no poder para desfazer o que fez. Pendulação que certamente executaria com maestria, pois talento para isso nunca lhe faltou. Na Presidência e antes.

Por justiça, é necessário notar que Lula apenas radicalizou uma linha tradicional da diplomacia brasileira, de secundarizar os juízos de valor sobre situações internas de outros países, em nome do respeito à autodeterminação dos povos.

Essa tradição permitiu ao presidente unir o útil ao agradável.

O problema é que o combate a ditaduras e ao desrespeito aos direitos humanos vão se transformando em pauta global, especialmente no contexto da onda democrática revolucionária no mundo árabe e islâmico.

Dilma apenas governa de acordo com o espírito do tempo. Como mostrará a visita de Barack Obama ao Brasil.

A turma é a mesma, as convicções são as mesmas, mas as circunstâncias, feliz ou infelizmente, mudaram muito.

Cuba

Parte do PT gostaria que a pendulação pró-americana do discurso governamental tivesse consequências positivas na busca de soluções para o impasse cubano.

Não é trivial, até porque a disputa presidencial americana vem aí. Obama lidera as pesquisas, mas a campanha com os republicanos será acirrada.

Sempre é possível avançar. Os Estados Unidos desejam o fim do monopólio do poder do Partido Comunista em Cuba, com a convocação de eleições livres e multipartidárias. A liderança cubana vê nisso o fim da Revolução.

E exige o fim imediado do embargo econômico.

Talvez a conjugação de esforços entre Dilma e Obama possa conduzir a um caminho intermediário, com concessões mútuas e um cronograma de transição.

Cadê?

Em países com larga tradição no uso da energia nuclear o cenário decorrente da crise japonesa vem sendo publicamente manejado pelas principais lideranças políticas.

O melhor exemplo é a Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel tomou a frente da coisa rapidamente. Assim é também na França, nos Estados Unidos.

Tem certas situações nas quais a política de só expor Dilma em ambientes controlados acaba transmitindo, talvez erradamente, a impressão de omissão.

É um assunto sério demais para ficar nos escalões inferiores.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (18) no Correio Braziliense.

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domingo, 9 de novembro de 2008

The show must go on (09/11)

Mais pronunciadamente à direita do que à esquerda, mas em todo o espectro da política, ouvem-se as inevitáveis previsões de que um dos maiores problemas de Barack Obama será atender às demandas despertadas por ele na campanha eleitoral. Você certamente se lembra de ter ouvido algo parecido aqui no Brasil, com Luiz Inácio Lula da Silva. "Quero ver ele conseguir cumprir tudo o que prometeu, quero ver ele resolver todos os problemas que apontou." A imprensa esteve entupida desse tipo de bobagem no fim de semana. O que talvez as pessoas não percebam agora para analisar os Estados Unidos (assim como não perceberam para analisar o Brasil seis anos atrás) é que o eleitor comum não se inclinou por Obama em busca de um messias, ou de um resolvedor-geral imediato de encrencas. A maioria do eleitorado americano optou por ele para liderar o país numa época difícil, para mudar de rumo. Uma ótima reportagem do The New York Times feita em Levittown, na Pensilvânia, ajuda a compreender melhor. A área é esmagadoramente branca, operária e de classe média. Aliás, a reportagem mostra, mais uma vez, o quanto a questão racial ocupou lugar secundaríssimo este ano nos critérios de escolha do nome para morar na Casa Branca. Como já se afirmou aqui (Esquerda e direita e Barreira, e não motivo), o fato de Obama ser negro foi um obstáculo a ser superado pelo eleitor médio nos Estados Unidos, não foi o motivo para que esse eleitor votasse nele. Mas, fazer o quê? The show must go on. A turma não está deleitada discutindo o cachorrinho que as Obamas vão levar para a Casa Branca? E tem outra coisa, especificamente aqui no Brasil: se o pessoal não for discutir a cor de Barack Obama vai ter que debater aspectos mais incômodos. Que o país mais rico do mundo não consegue oferecer, para quem não tem (muito) dinheiro, saúde de qualidade pelo menos igual à brasileira. Que ali o sistema privado de previdência mostrou não garantir a mínima segurança para quem vai se aposentar. Que o mercado deixado à própria sorte leva a economia à catástrofe. Que a intervenção do Estado é a única maneira de salvar a sociedade da cobiça ilimitada dos capitalistas. Dito isso, escolha você mesmo qual das duas opções é mais conveniente ficar martelando na cabeça das pessoas: 1) que os Estados Unidos são um país tão legal que elegeram um negro para a Presidência da República, ou 2) que a direita empurrou os Estados Unidos para um buraco tão fundo que a sociedade americana, reconhecidamente marcada pelo racismo, preferiu até escolher um negro em vez de arriscar eleger novamente alguém do Partido Republicano.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Na situação do remador (07/04)

Até agora, o discurso de Lula era suficiente para manter nosso presidente em pé no fio de arame nuclear. Nas novas circunstâncias, num jogo cada dia mais complexo, talvez o cenário esteja a pedir um upgrade

Barack Obama vem dando passos importantes para o mundo livrar-se um dia das armas nucleares. Fechou com a Rússia a redução bilateral de arsenais. E lançou uma nova doutrina de defesa. Na qual três pontos merecem destaque.

Os Estados Unidos renunciam ao desenvolvimento de novas ogivas. Renunciam a empregar artefatos nucleares contra países signatários do Tratado de Não Proliferação (TNP) — e que, naturalmente, estejam cumprindo o TNP. E comprometem-se a não usar a bomba se forem atacados com armas convencionais, químicas ou biológicas.

É um estímulo a que países adiram e se mantenham dentro do TNP. E um passo para reforçar o protagonismo americano no debate planetário sobre o desarmamento.

Há dois caminhos possíveis, na teoria, para alcançar um mundo desnuclearizado.

O primeiro é congelar o status quo e forçar os detentores da tecnologia nuclear com fins bélicos a, progressivamente, renunciarem ao uso.

O segundo é apostar na proliferação como caminho para a distribuição mais justa do poder nuclear, o que eventualmente geraria uma nova modalidade, multipolar, do “equilíbrio do terror” que caracterizou a Guerra Fria.

O Brasil namora a segunda hipótese, sem que explique exatamente a razão. Não temos contencioso territorial com vizinhos. Não temos vizinhos cuja capacidade convencional seja ameaça real a nossa soberania. E não haveria como competir nesse terreno com os Estados Unidos para, hipoteticamente, equilibrarmos a relação de forças com eles.

Para complicar, um mundo em que a proliferação vire regra não é aceitável pelas demais potências, pelo receio de a tecnologia cair na mão de grupos terroristas. É o medo de surgir um “desequilíbrio do terror”.

Ainda que possa haver entre nós quem enxergue o terrorismo de matriz global como “aliado tático na luta anti-imperialista”, esse viés não recolhe, aqui dentro ou lá fora, a simpatia de ninguém com peso específico para influir nas decisões, locais ou mundiais.

É possível relativizar a decisão americana? Claro. Se o fator limitante da nova situação de forças for somente a capacidade convencional, a vantagem dos Estados Unidos provavelmente vai crescer, em vez de diminuir.

Há aqui duas constatações: não se faz omelete sem quebrar ovos e o serviço do presidente dos Estados Unidos é defender os interesses dos Estados Unidos. Como o do Brasil é defender os do Brasil.

Isso talvez surpreenda quem supunha ser Barack Obama uma modalidade estadunidense de Mikhail Gorbatchev. O establishment americano está a (muitos) anos-luz do estágio de degradação da elite soviética quando esta assistiu impotente ao colapso de seu país.

Em termos práticos, e no que interessa a nós diretamente, estreita-se a margem para dubiedades. Luiz Inácio Lula da Silva vem se equilibrando numa retórica de duas pernas. O diálogo (com o Irã) como único caminho aceitável. E a pouca autoridade moral dos países nucleares para ditarem regras aos demais.

Até agora, o discurso de Lula era suficiente para manter nosso presidente em pé nesse fio de arame, mesmo com influência apenas relativa. Nas novas circunstâncias, num jogo cada dia mais complexo, talvez nossa “situação de remador” esteja a pedir um upgrade.

Qual é a esperteza do remador? Ele olha para um lado, mas faz força com o objetivo de se deslocar no sentido oposto.

Para o arquivo

É justa a luta do Ministério Público contra o Projeto de Lei nº 265/2007. Ele propõe punir membros do MP que adotem decisões funcionais movidos por má-fé, por desejo de promoção pessoal ou para perseguição política.

O trabalho do MP deve e pode ser criticado, mas a independência da instituição é essencial para a democracia. Um sintoma dessa importância é todo partido querer colocar freio e mordaça nos procuradores quando chega ao poder.

Sem contar que o projeto é natimorto. Como produzir prova sobre “as reais intenções” de um promotor?

O único objetivo da ideia é intimidar. E talvez mobilize sentimentos favoráveis no Parlamento. Por isso, cairá bem no currículo do presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), se ele ajudar a mandar a bobagem ao arquivo.

E sua excelência ficará melhor ainda na foto se, junto, der um jeito de enterrar a legalização dos bingos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (07) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cada um por si (11/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Com o que você acha que Barack Obama vai gastar mais tempo quando puser os pés na Casa Branca: alternativas para uma nova engenharia institucional planetária das finanças ou idéias para criar empregos nos Estados Unidos?

Por Alon Feuerwerker
alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

A reunião do G20 no Brasil esgotou-se em declarações de intenções e na expressão de desejos voltados para um futuro melhor, para um porvir mais vacinado contra crises financeiras como a que hoje ameaça devastar a economia planetária. Era mesmo previsível que a tertúlia desse em quase nada: fica a cada dia mais evidente que uma “reforma civilizadora” do sistema global esbarra em dificuldades estruturais. A primeira — e mais importante — é a inexistência de quem possa impor às potências, especialmente à maior delas, mecanismos externos de controle sobre suas decisões nacionais. Não há como os ratinhos colocarem o guizo no pescoço do gato, ainda que o bichano pareça meio grogue.

Alguém acha, a sério, que os Estados Unidos vão admitir algum tipo de “supervisão internacional” sobre o seu mercado financeiro? Fala-se em reeditar Bretton Woods. Ali tratou-se simplesmente de entregar o comando do dinheiro mundial às autoridades americanas. Menos de três décadas depois, elas deram uma banana aos crédulos e mandaram avisar que não mais garantiriam a conversibilidade do dólar em ouro. O que aconteceu? Nada. Os protestos foram muitos, mas não havia quem pudesse fazer algo de prático a respeito.

Agora vai ser igual. Esgotados os discursos e os apelos piedosos por uma nova ordem econômica mundial, a vida real vai se impor. E todos irão esperar pelas medidas adotadas nos Estados Unidos para fazer girar novamente a roda do consumo. Aliás, com que tema você acha que Barack Obama vai gastar mais tempo quando puser os pés na Casa Branca (ou até antes): 1) as alternativas para uma nova engenharia institucional planetária das finanças ou 2) os planos para criar empregos nos Estados Unidos?

Quanto mais cedo os países acordarem para a realidade, melhor. A hora é, essencialmente, de cada um cuidar da própria casa. Cada um com os seus problemas. Ainda que o problema central de todos seja o mesmo: como evitar que a escassez de crédito e de confiança combinadas nos conduzam a uma recessão que pode evoluir para uma depressão, como prevêem os mais pessimistas (ou realistas).

Os mais otimistas, ou sonhadores, pedem avanços imediatos na liberalização do comércio mundial, na esperança de que isso ajude a criar fluxos comerciais que funcionem como antídoto à desaceleração dos negócios. Qual é a probabilidade de dar certo? Perto de zero. Com a imagem das vacas magras no horizonte, com os governos politicamente pressionados para proteger cada um o seu mercado, imaginar que vai ser dado agora algum passo real para eliminar barreiras protecionistas é sonhar de olhos abertos, é deixar-se embriagar pela esperança.

O realismo aponta para outro lugar. A hora é de os governos mobilizarem todos os recursos disponíveis para executar políticas anticíclicas em seus próprios países. Se o consumidor está sem crédito e com medo de perder o emprego, e se o breque no consumo leva as empresas a colocar o freio nos investimentos, é o hora de o governo entrar em campo. Não para distribuir dinheiro, que provavelmente ficaria empoçado, como diz o jargão. Mas para investir, para fazer encomendas às empresas, para que estas mantenham os empregos e para que, assim, o trabalhador-consumidor sinta um pouco mais de segurança para voltar a gastar.

O Brasil seguiu nos últimos tempos uma receita de sucesso na economia. Conseguimos reduzir o endividamento público, um dos focos da instabilidade crônica das décadas anteriores. A receita deu certo também porque havia capital abundante no mundo. Mas a realidade mudou. O dinheiro lá fora anda escasso, e nada indica que a bonança voltará rapidamente. Uma realidade nova pede uma nova política, que aumente para valer a capacidade de o Estado investir.

Luiz Inácio Lula da Silva está como o comandante de um transatlântico que precisa corrigir a rota. Mais acostumado a gastar com custeio do que a realizar investimentos, precisa tomar providências a tempo de escapar do iceberg. A ameaça é um cenário futuro de inflação alta com crescimento baixo, fórmula clássica de desmanche de governos no Brasil. Crescimento razoável e inflação baixa não apenas ajudaram Lula a sobreviver às crise políticas, garantiram também sua reeleição. É razoável projetar que um eventual baixo crescimento, combinado com uma maior pressão dos preços, possa mudar o quadro político.


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Razões para Hillary preocupar-se. E um texto de Obama para comparar com nossos políticos (08/02)

Teve gente que enxergou ganhos de Hillary Clinton na superterça. Miragem ou spinning? Sobre o assunto, leia este excelente artigo do politico.com: Five reasons Hillary should be worried, de Jim VandeHei e Mike Allen. E veja também esta aula de marketing político que é a mensagem de ontem de Barack Obama aos cadastrados em seu site (http://www.barackobama.com/):

Friend
One of the things I'm most proud of about our campaign is not the amount of money we've raised, but the number of people giving it. As of this afternoon, more than 300,000 people have given in 2008 alone, taking ownership of this campaign by making a donation of whatever they can afford. This has never happened before. No one has ever built a campaign involving so many Americans as true stakeholders. It speaks volumes not only about the kind of campaign we're running, but also about how we want politics to be. So many of us have been waiting so long for the time when we could finally expect more from our politics, when we could give more of ourselves and feel truly invested in something bigger than a particular candidate or cause. This is it. We are the ones we've been waiting for. We are the change that we seek. We won the most states and the most delegates on Tuesday because a movement of people decided to take back the political process and participate in unprecedented numbers. Today we set a new goal: 500,000 people giving to our campaign this year by March 4th. It's time to take the next step. Please make your first donation now: https://donate.barackobama.com/match. When you do, one of the 300,000 people who have already given this year will match your donation. You'll see the name and town of the person matching your gift, and you'll even be able to send them a note about why you took the leap. This has been a remarkable week already, but we are entering what could be a decisive phase of the campaign. We face contests in Nebraska, Washington State, and Louisiana on Saturday. Maine will go on Sunday. And Virginia, Maryland, and Washington, D.C. will vote on Tuesday. It's going to take every one of us reaching out, organizing, and giving our all to make it happen. As we headed into the Iowa caucuses, it had taken us nearly a year to reach our first 500,000 donors. Now, with your help, we will be able to repeat that feat in a little over 60 days as we head into Texas, Ohio, Rhode Island, and Vermont on March 4th. So many people said we would never get here. But we're proving every day that ordinary people can still accomplish extraordinary things. Thank you,
Barack


Agora compare: 1) a essência do que você acabou de ler com 2) as reações dos nossos políticos nesta crise do cartão corporativo. Aí você entenderá o que eu quis dizer em De onde vêm os Obama, em O cinismo do Executivo e no post anterior a este.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Munição de anúncios para a candidata (23/10)

Nos programas, o espectador pode desligar e sair para fazer outra coisa. Já com as inserções é diferente. Ninguém desliga a TV ou o rádio por causa de publicidade curtinha: espera acabar

O quadro para 2010 está desenhado. Dilma Rousseff (PT) vai de uma megacoalizão, que lhe garante o dobro de tempo de rádio e TV do principal adversário, em teoria o nome que o PSDB indicar. Correndo por fora, Marina Silva (PV) terá de menos o que Dilma tem demais. Veremos como a ex-ministra do Meio Ambiente se vira com a escassez.

Há conversas aqui e ali sobre a relativização do tempo de TV e rádio, por causa da expansão do acesso à internet. O exemplo sempre citado é a eleição de Barack Obama. O paralelo é duvidoso. O Brasil tem bem menos população conectada do que os Estados Unidos, proporcionalmente. E dizer que a internet decidiu a eleição americana é, de cara, um exagero.

Barack Obama deixou os republicanos na poeira em arrecadação de recursos de campanha, o que lhe permitiu promover um massacre televisivo, com as inserções publicitárias. Elas são essenciais, para o ataque e a defesa. Com o dobro de anúncios, Dilma pode se dar ao luxo de falar de si e também desgastar os adversários. Tudo com sobras.

Quando se analisam os tempos de rádio e TV, o mais comum é comparar os horários dos programas, na hora do almoço e à noite. Mas as inserções são tão ou mais importantes. Nos programas, o espectador pode desligar e sair para fazer outra coisa. Já com os anúncios é diferente. Ninguém desliga a TV ou o rádio por causa de publicidade curtinha: espera acabar.

Esqueça a conversa bonita. O que o PT quer do PMDB é o tempo de televisão. E o governo Lula tem meios para se impor na convenção nacional do partido aliado, ainda que seções importantes estejam descontentes com a aliança. Risco? Só se Dilma chegar a meados do ano que vem como uma candidata inviável. Coisa pouquíssimo provável.

“Governar juntos”

Mudando um pouco o foco, e por falar em conversa bonita, véspera de eleição tem de tudo, especialmente quando os candidatos tentam seduzir políticos em busca de apoio. O mais divertido é ouvir as promessas aos aliados de que “vamos governar juntos”. Depois da urna, o eleito forma em torno dele um núcleo de confiança irrestrita nos cargos-chave, e distribui posições de bela execução orçamentária aos aliados para garantir apoio parlamentar e social. Mas sempre com o segredo do cofre bem guardado.

A questão-chave de todo processo político é saber quem, em última instância, detém o poder. Cada político é um ponto de aglutinação de certos interesses, especialmente empresariais. Que irão prevalecer caso o sujeito seja um jóquei do cavalo vencedor. Ou poderão afundar se o indigitado colocar as fichas na casa errada. Aí não tem partido. São tribos. E nessa guerra tribal o vencedor leva tudo.

Estrutura partidária

Um erro comum entre os políticos é — espantem-se! — subestimar a política. Figuras da oposição que gostam de fazer pesquisas localizadas têm histórias interessantes para contar. Semanas atrás, certo deputado encomendou um levantamento em cidades do interior do Nordeste.

Quando a cartela era Serra x Dilma, assim a seco, o tucano levava vantagem. Quando Serra era confrontado com “Dilma, candidata de Lula”, a situação passava a ser de empate. Que se desfazia, com Serra retomando a vantagem, quando o tucano aparecia apoiado pelo político local.

Aliado ao PMDB, o PT ganha em teoria uma bela estrutura para fazer campanha localmente. Há problemas em estados importantes, entre eles São Paulo (onde o PMDB é fraco), Rio Grande do Sul, Paraná e Pernambuco. Mas é um avanço e tanto em relação às campanhas que o PT costumava fazer, só aliado a partidos pequenos, ou nem isso.

Considerando que o PT não terá Luiz Inácio Lula da Silva na cabeça da chapa, vai precisar desse reforço.

Cálculos paulistas

Um obstáculo no PT à proposta de apoiar a possível candidatura do deputado Ciro Gomes (PSB) ao governo de São Paulo é a avaliação de que ele iria pior na eleição do que, por exemplo, Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante. Com as óbvias consequências no tamanho das bancadas eleitas.

Outro fator é que se Marta concorrer à Câmara dos Deputados vai drenar muitos votos de aliados que hoje têm mandato.

Já no Planalto a avaliação é que o PT não tem chance nenhuma em São Paulo, e que caminha para um desempenho pífio, em qualquer caso. E que, portanto, a operação política de tirar Ciro do páreo nacional seria feita a custo zero.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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