Janela de oportunidade (09/01)
É com os dedos cruzados de esperança que a área econômica do governo brasileiro aguarda a posse de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos no próximo dia 20. Quem olha para o Palácio do Planalto e se fia nas aparências pode até enxergar antiamericanismo em certos momentos das relações entre os dois países. Mas quem procura saber da vida real percebe que a reza brava na Esplanada é pela recuperação na economia americana. Nos ministérios que contam, essa é melhor aposta para evitar que o Brasil breque numa intensidade politicamente prejudicial ao governo.
Houve um tempo em que Luiz Inácio Lula da Silva, então na oposição, debitava muitos dos graves problemas nacionais a uma suposta falta de vontade política dos governantes. Por esse critério, os ranzinzas poderiam observar agora que, como falta a Lula vontade política para fazer o Banco Central e o sistema financeiro servirem ao país, o nosso presidente deveria torcer para que Barack Obama consiga movimentar a grande locomotiva do norte.
É também a situação nos demais países latino-americanos, mais dependentes ainda da exportação de commodities e desprovidos de um mercado interno musculoso como o nosso. Daí que, paradoxalmente, o atual cenário de dificuldades políticas regionais esteja a abrir uma ampla janela de oportunidade para os norte-americanos estreitarem suas relações no hemisfério —e reafirmarem a hegemonia . Afinal, se o negócio dos Estados Unidos são os negócios, conceito creditado a um presidente americano, Calvin Coolidge, é possível que a fome esteja mais perto de se juntar à vontade de comer do que indicam as aparências.
Existem é certo os conflitos ideológicos. Mas hoje, como ontem, eles devem ser vistos com alguma reserva. Nos anos 30 do século passado, por exemplo, um vetor progressista no subcontinente era representado pelo nacionalismo apoiado em massas urbanas emergentes. Mais ou menos como agora (talvez não na Bolívia, onde a base de Evo Morales é também rural). No impulso anti-imperialista, correntes socialmente progressistas chegaram no Brasil a inclinar-se em direção à Alemanha de Adolf Hitler, flertando por exemplo com o antissemitismo. O que só mudou quando os Estados Unidos 1) deixaram claro de que lado estavam e que, portanto, o outro lado provavelmente perderia a guerra e 2) ofereceram ao Brasil oportunidades de desenvolvimento. Foi assim que Getúlio Vargas conseguiu fazer nascer a Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras vantagens arrancadas do colega Franklin Delano Roosevelt.
Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas, e certamente saberá extrair o máximo de Barack Obama. Nem o cenário mundial tendente à proteção das economias nacionais desautoriza o otimismo. Para ter sucesso, porém, Lula precisará encaixar a agenda certa.
Um ponto de honra é o etanol. O governo e os empresários brasileiros montaram uma espécie de “invencível armada” dos biocombustíveis, vislumbrando um passeio em mar de almirante, com as velas enfunadas pelo preço explosivo do petróleo e pelo pavor planetário com as mudanças climáticas. Só que as embarcações do álcool da cana-de-açúcar, a exemplo da esquadra de Felipe II da Espanha no século 16, ameaçam ir a pique, pela falta de mercado. Já faltava antes da crise global, quanto mais agora. Depois de investimentos maciços no setor, o cenário brasileiro é de oligopolização acelerada, estoques lá em cima, preços lá em baixo, rentabilidade em risco e empresários de pires na mão rumo a Brasília atrás de socializar os prejuízos.
Se Barack Obama quer ter boas relações com o Brasil nestes dois anos, basta orientar-se pelo que Calvin Coolidge disse e fazer o que Franklin Delano Roosevelt fez.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.
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