Bonde sem freio (30/06)
Há pelo menos um detalhe muito complicado na operação entre o Pão de Açúcar e o Carrefour. No que exatamente a concentração do varejo é boa para o país? Ou para os brasileiros? Alguém explica?
O dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social vem do trabalhador, diretamente ou por aportes do Tesouro, que se abastece com impostos pagos por quem trabalha e empreende.
O governo não produz poupança. O superávit primário é a face bonita do déficit nominal. Para capitalizar o BNDES o Tesouro precisa fazer dívida, tomar emprestado pagando a Selic, o dobro do que recebe do banco pelo dinheiro que repassa.
A operação entre o Pão de Açúcar e o Carrefour vai colocar um único grupo em posição dominante no varejo nacional. E se a base é expurgada dos pequenos e médios o grau de concentração revela-se ainda maior.
Monopólios podem impôr preços nas duas pontas: baixos para os fornecedores e altos para os consumidores.
Sem falar que consolidações assim sempre produzem demissões, em busca da elevação de produtividade.
O governo sugere que a operação permitirá colocar mais facilmente produtos brasileiros no exterior. Mas o varejo move-se por preços e margens, não pela nacionalidade dos fornecedores. Um argumento fraquíssimo.
É inimaginável que o grupo resultante da fusão se obrigue contratualmente a comprar certa proporção de mercadorias genuinamente brasileiras.
A articuladora política do governo manda dizer à base que não existe o dinheiro para pagar a quadra de esportes, o asfaltamento da avenida ou a construção da ponte colocada no orçamento por uma emendinha parlamentar, a vilã de sempre.
Tudo em nome do combate à inflação.
Mas enquanto regula nas migalhas o governo faz dívida pesada para financiar a juros subsidiados a concentração do varejo, uma operação duplamente inflacionária. Por aumentar a dívida pública e por reduzir a concorrência na ponta do comércio popular.
O capitalismo monopolista de estado no Brasil virou, literalmente, um bonde sem freio. No popular, uma festa sem limite e sem hora para acabar.
Seletivo
O Parlamento da Grécia aprovou o plano de austeridade do governo para tentar evitar a moratória. É um alívio para os mercados.
A Europa balança ao sabor das maiorias e minorias no Congresso em Atenas.
Este talvez seja o maior nó da unificação europeia. A moeda é única, mas os países continuam a definir soberanamente suas respectivas políticas fiscais. Um frankenstein.
É razoável que os alemães resistam a pagar a conta da farra grega. Ou de outra nacionalidade qualquer.
Ainda que o mercado comum seja ótimo para uma Alemanha fortemente industrializada e sempre em busca de mercado para seus produtos.
Mesmo que União Europeia sobreviva ao tsunami financeiro as tensões continuarão crescentes. A livre circulação de pessoas, por exemplo, acaba de receber um breque, diante do temor de ondas maciças de imigração árabe e africana.
Em certas situações, os países estarão autorizados a restabelecer os controles fronteiriços. Um retrocesso e tanto.
Costuma ser assim. Quando a coisa aperta, a primeira vítima é a livre circulação da mão de obra.
Já o capital...
Indiretas já
São crescentes as chances de qualquer reforma política eventualmente aprovada no Congresso precisar passar por um referendo popular.
Seria saudável. Uma demonstração de bom senso. Especialmente para as excelências que pretendem estabelecer o voto indireto para deputado e vereador. A turma das indiretas já.
Será um debate divertido. Se suas excelências permitirem o debate em rede nacional de rádio e televisão.
Quando se trata de abrir mão de direitos, o eleitor costuma ir na contramão da opinião pública, entendida como o pessoal que se crê proprietário da opinião do eleitor.
Um pessoal que costuma ter surpresas quando o eleitor, finalmente, é chamado a falar pela própria boca.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.
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