De amigo a inimigo (28/11)
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Observações políticas
Vou tocar num assunto que costumo evitar. É o caso da morte em 2002 do então prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT). Na verdade, este post não é sobre o caso Celso Daniel. É sobre o tratamento dado ao trabalho da polícia e dos promotores. Quando o resultado das investigações atende a determinados propósitos políticos, é apresentado ao público como se fosse decisão judicial definitiva, da qual não cabe recurso. "Cortem-lhe a cabeça!", clamam, como em Alice no País das Maravilhas (na imagem, o desenho de Walt Disney). Quando não atende aos propósitos aludidos, o que se ouve são reclamações, resmungos e insinuações. A turma que gosta de produzir listas de cassação de deputados e senadores contra os quais não há provas -e depois passa o tempo esbravejando sobre a "pizza" que seria ousar absolver algum dos infelizes colhidos na contramão da "opinião pública", agora quer também puxar para si a prerrogativa de escrever relatórios de inquéritos policiais ou da promotoria. Menos, pessoal, menos. Por duas vezes a polícia do governo paulista concluiu que a morte de Celso Daniel não teve motivação política. O Ministério Público discorda e quer continuar a investigar. Que se investigue o tanto que for necessário e o tanto que a lei permitir. Mas o pessoal habituado a jogar nas manchetes qualquer coisinha que vaza de inquéritos ainda em andamento precisa tomar um simancol e perceber que essa dicotomia no tratamento da informação está pegando mal.
É bacana pescar textos antigos e constatar que eles não morreram. Reli o post Back to basics para a oposição, de abril deste ano. Ele está vivo. Sete meses e uma eleição perdida depois, o PSDB e o PFL parecem aquele garoto que chegou da escola e tem uma lição de casa chata para fazer, tipo assim de matemática ou de química. Aí o cara começa a enrolar. Dá uma ligadinha na televisão, dá uma olhadinha nos emails, dá uma dormidinha, bate um papinho com a namorada ao telefone, vai jogar uma bolinha com os amigos. E os problemas de matemática (e química) ali, esperando por ele, olhando para ele. Intocados e implacáveis. O garoto, claro, pensa que está sendo muito esperto. Que está engabelando alguém. Está é enrolando a si mesmo. Coisa de adolescente. A oposição me dá a impressão de agir como um adolescente que se recusa a fazer a tarefa de casa, como se tivesse todo o tempo do mundo para encontrar a solução de problemas que, a serem enfrentados com prazo determinado, demandariam um pouco de inspiração e muita transpiração. Mas a oposição não quer saber da receita vitoriosa de Thomas Edison. Tomou pau nos exames e acha que, um dia, vai passar na recuperação com a mesma fórmula que a conduziu ao fracasso na primeira tentativa. Lembra, em alguns aspectos, "O feitiço do tempo" (Groundhog Day em inglês). Aquele filme em que o sujeito acorda todo dia no mesmo dia, como se o tempo não passasse nunca. É desesperador, mas o personagem principal tem a vantagem de poder aprender alguma coisa nova a cada 24 horas. É o que ele (ao contrário do PSDB e do PFL) acaba fazendo. O que acaba sendo de alguma utilidade, ainda que o desespero o leve a se matar seguidas vezes (foto). Apenas para acordar no dia seguinte e perceber que não manda nem no seu próprio suicídio. Vocês não acham que tem a ver com o PSDB e o PFL? A eleição passou e eles continuam na mesma ladainha, como se o tempo tivesse voltado: estão ali, resmungando contra Luiz Inácio Lula da Silva e fazendo birra no Senado. Enquanto isso, o petista vai jantando o PMDB, numa operação que pode comprometer o sonhado 2010 de tucanos e pefelistas. Se o presidente conseguir (torcemos para que consiga) conduzir o país ao destravamento de que tanto fala, se levar a economia a crescer não necessariamente 5%, mas pelo menos uma média entre 4% e 5% ao ano nos próximos quatro anos, se o Banco Central ao final de seu governo tiver reduzido a taxa básica de juros para algo em torno de 6% reais e se as obras que prometeu na campanha estiverem pelo menos para sair do forno vai ficar bem difícil a vida de quem tiver apostado todas as fichas no fracasso deste segundo mandato (como foi difícil a vida de quem apostou seus trocados no fracasso deste que está no final). E Lula eventualmente poderá eleger o sucessor numa provável aliança (mesmo de segundo turno) entre PT, PMDB, PSB, PCdoB e agregados -como aconteceu agora. A oposição não tem o suicídio como alternativa, nem terá os seus problemas resolvidos pelo efeito da passagem do tempo. Melhor é aceitar o recomeço e tentar aprender alguma coisa nova a cada dia. Melhor ainda será se decidirem dizer o que pretendem fazer pelo país nos próximos quatro anos, e usarem o poder dado pelas urnas para colocar essas idéias em prática, nos estados e no Congresso. Pois esse será o seu cartão de visitas para tentar voltar ao Palácio do Planalto em 2010. Mas talvez a oposição não esteja preocupada com 2010. Do mesmo jeito que todo ano tem o Dia da Marmota nos Estados Unidos e no Canadá, também tem eleição no Brasil de quatro em quatro anos. Depois de 2010 vêm 2014, 2018, 2022, 2026, 2030... Para que ter pressa? Ela é inimiga da perfeição, não é?
Um interessante exercício matemático do economista José Márcio Carmago está na Carta Semanal que a consultoria Tendências acaba de enviar aos seus clientes. O resumo está na tabela acima. De 1999 a 2005 a carga tributária (coluna III) subiu de 30% para 38% do PIB. O investimento público (coluna I) caiu de 5% para 2% do PIB e o privado subiu de 17% para 19% do PIB. Ou seja, se o investimento privado for dividido pela parte do PIB que permanece em mão privadas após o recolhimento dos impostos (coluna IV), concluiremos que o capital em mãos de particulares investe cerca de 30% do "seu" PIB. Segundo Camargo, é uma taxa alta para os padrões internacionais. Já o Estado está investindo apenas 5% do "seu" PIB. A partir daqui as deduções são minhas. Está na cara que mais renúncia fiscal não vai resolver o problema de aumentar em cinco pontos percentuais a taxa de investimento (na tabela, 20,5% do PIB em 2005). O que se precisa recuperar é a capacidade de o setor público investir. Não chega a ser novidade. E aí não tem choro nem vela: ou se contém o custeio (politicamente problemático), ou se faz mais dívida. Já escrevi sobre isso em O Brasil deveria se endividar mais?.
Lá pelo começo da década eu dava aulas de jornalismo online na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. O foco do curso era a usabilidade e a referência eram os textos de Jakob Nielsen. Os trabalhos dele podem ser encontrados no site www.useit.com. O curso começava com o estudo de um texto de Nielsen de agosto de 1998, The End of Legacy Media (algo como "o fim da mídia herdada"). Nele, o autor previu que a separação entre os formatos tradicionais da mídia (jornal, revista, etc.) deixaria de existir num prazo entre cinco e dez anos. Lembro que os alunos costumavam receber a previsão de Nielsen com desdém, mas a discussão que se seguia era sempre estimulante. No final, concluíamos que o jornal impresso, por exemplo, poderia até continuar por aí, existindo materialmente, mas que a previsão de Jakob Nielsen fazia sentido se "existência" fosse entendida como sinônimo de "relevância". Lembrei desses debates de anos atrás quando conversava semana passada com um amigo. Ambos viajamos de avião com uma freqüência maior do que seria razoável. Ele me disse que a única situação em que sente falta do jornal impresso é durante viagens aéreas longas. Daí eu propus que ele prestasse atenção nas salas de embarque dos aeroportos, onde hoje já há bem mais gente olhando para a tela de um notebook (geralmente conectado à Internet por uma rede sem fio) do que para uma página de jornal. E juntos notamos que não conhecemos ninguém de menos de 20 anos que leia jornal impresso. E percebemos que a Internet brasileira já tem, por baixo, uns 40 milhões de usuários, ao passo que o maior jornal do país continua tirando por volta de 300 mil exemplares em dias de semana e 400 mil no domingo -mais ou menos o que tirava uns quinze anos atrás. Faltam apenas dois anos para que o prazo dado por Nielsen se esgote. Pelo menos em relação aos jornais impressos, ele parece estar mais perto de ser confirmado do que de ser desmentido.
O estudo especial do IBGE sobre cor ou raça na Pesquisa Mensal de Emprego, divulgado ontem, merece um comentário. O que mais me impressionou foi a diferença entre brancos e pretos/pardos com curso superior (25,5% a 8,2%). Mais até do que a diferença no rendimento médio (R$ 1.292,19 a R$ 660,45). Teorizem o quanto quiserem, as políticas universalistas não dão conta de desigualdades em estágio tão avançado quanto o detectado na pesquisa do IBGE. É possível que investimentos maciços na educação que o pobre recebe antes da Universidade resolvessem o problema (ou pelo menos o atenuassem) no longo prazo. "Mas quando é que esse longo prazo vai chegar, doutor?", perguntariam os interessados, se pudessem. Mais dia, menos dia, o assunto das cotas terá que ser enfrentado de uma maneira razoável. Claro que teria sido melhor se lá atrás a Abolição tivesse vindo acompanhada de uma reforma agrária para os escravos libertos. Infelizmente não foi assim que se passou. A questão é prática. Tratar igualmente os desiguais não reduz a desigualdade, pelo menos não numa velocidade aceitável. E o sistema de cotas não será novidade na legislação social brasileira. As mulheres, por exemplo, têm o direito de se aposentar antes dos homens. Trata-se de uma espécie de "cota" de gênero, não acham? De um ponto de vista intelectualmente "universalista", seria razoável que as regras para a aposentadoria de homens e mulheres fossem iguais. Qual é a minha proposta? Ainda não estou bem certo, mas penso que poderíamos adotar uma cota mista, social e racial, mas temporária. Seria como um remédio, prescrito durante tempo suficiente para ao menos reduzir essa fratura inaceitável, a mais vistosa cicatriz que carregamos da chaga da escravidão.
Luiz Inácio Lula da Silva parece ter colocado o pé no breque para dar uma freada de arrumação no rearranjo das forças políticas para o segundo mandato. Faz sentido. Lula quer saber, antes, com quem contará de fato. Só depois vai redistribuir o poder na esfera ministerial e no resto do primeiro escalão. É uma maneira de moderar o apetite dos partidos, que agora precisarão mostrar serviço se quiserem aumentar sua musculatura. Dizem-me que Lula decidiu negociar em bloco com legendas e bancadas. Vamos ver. Se for isso mesmo, o presidente está 100% certo. De todo jeito, o cenário político anda meio estranho. Exótica, essa coisa de os derrotados tentarem se impor aos vitoriosos, assim na mão grande. Estão tentando na economia e na política. O deputado Michel Temer (PMDB-SP) canta de galo, depois de ter sido um dos comandantes do Waterloo de Geraldo Alckmin. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (vitorioso no seu estado, mas derrotado nacionalmente), está todo dia na imprensa dando alguma lição ao presidente. Para um político mineiro, Aécio está surpreendentemente exposto. Por falar em Waterloo (a célebre última batalha de Napoleão Bonaparte; clique para ampliar o clássico óleo sobre tela de Jacques-Louis David, de 1801, com a imagem do francês atravessando os Alpes), a leitura dos jornais e revistas depois da vitória de Lula leva o sujeito a respirar os ares de um Congresso de Viena em que todas as comunicações com o mundo exterior tivessem sido cortadas. Avisem a Metternich e Talleyrand que desta vez Napoleão ganhou. Se quiserem redesenhar o mapa da Europa, precisarão entender-se com o corso. Ideólogos e operadores da oposição (e redondezas) dão a impressão de que estão trancados em algum castelo austríaco, formulando planos para comandar a paz resultante da guerra que perderam. Da aristocracia, herdaram pelo menos a capacidade de dissimular o seu próprio declínio. Já é alguma coisa.
Como não sou católico, estou fora da jurisdição espiritual da Igreja. Da jurisdição temporal, então, nem se fala. É bom que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emita de tempos em tempos as suas opiniões. Faz parte do amplo ambiente de liberdades democráticas em nosso país. Mas o bom mesmo é não sermos obrigados a seguir ou adotar as posições da CNBB. Meus agradecimentos renovados ao Marquês de Pombal, cujo retrato ilustra este post (clique para ampliar). Sei que o faço em nome dos milhões que talvez não tenham a coragem de dar a cara para bater, já que o Brasil continua sendo um país "católico". Um país em que a hierarquia obediente (às vezes nem tanto) a Roma insiste em ditar regras para quem nada tem a ver com o que a Igreja acha ou deixa de achar . Duas pérolas do dia provenientes da CNBB. Os bispos criticaram o Bolsa Família, por supostamente "viciar" os pobres e não estimular que busquem emprego. Para o bispo Aldo Pagotto, presidente da Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, "há pessoas no Nordeste que não querem mais trabalhar, que se contentam com o mínimo [recebido pelo programa]". A informação está em reportagem da Folha Online. Com o respeito que merece o bispo Pagotto, poucas vezes uma autoridade religiosa (ou outra qualquer) proferiu equívoco de tal magnitude. Já escrevi o que penso sobre o assunto em Ninguém é idiota por ser pobre. Caro bispo Pagotto, se o sujeito que recebe o Bolsa Familia rejeita uma oferta de trabalho, não é por ter se transformado num preguiçoso: é porque talvez a remuneração oferecida não lhe agrade. E cidadania é também o direito de não vender a própria força de trabalho se o comprador não chegar a um preço mínimo. Parabéns ao Bolsa Família por dar ao pobre o direito de poder recusar uma proposta de trabalho aviltante. Outra luminosidade do dia foi emitida pelo presidente da CNBB, Geraldo Majella. Também segundo a Folha Online, ele condenou as negociações dos partidos aliados com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que envolvem cargos em troca de apoio. Disse que a nomeação dos novos ministros não pode ser tratada pelos partidos "como se estivessem dividindo o preço" da eleição de Lula e defendeu que as siglas tenham "coragem" para demonstrar "desprendimento". Estou interessado em saber como Majella sugere que seja formado o governo. Talvez Lula devesse compor um gabinete só com políticos da oposição ou com bispos "desprendidos". Piadas à parte, essa conversa do presidente da CNBB me deixou curioso. Como costuma ser composta a chapa para preencher os cargos na entidade episcopal? Será que na CNBB não há grupos, não há disputas, não há composições e concessões políticas? Ou devemos concluir que o lema dos bispos é o conhecido "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço"? Ou o também clássico "casa de ferreiro, espeto de pau"? Dêem-se ao respeito, senhores.