Os militares voltaram a comemorar sem constrangimento o aniversário do golpe de 31 março de 1964, que hoje completa 42 anos. É um sintoma? Talvez. Os pessimistas dirão que que o ambiente político e a crise do governo de esquerda do PT (o primeiro no país desde João Goulart, que era do PTB) abrem espaço para um potencial golpismo de direita manifestar-se com mais desenvoltura.
Os otimistas como eu acham que não é isso, que na democracia cada um comemora o que quiser, desde que pacificamente e sem ferir os direitos do outro. Até porque é preciso reconhecer: golpismo perigoso no Brasil não é nem nunca foi o dos militares. Foi e é o dos civis. Tenho mais receio das vivandeiras do que dos quartéis. Basta ler e ouvir o que se escreve e se diz, nos jornais e no Congresso. Os militares têm sido um elemento progressista na História do Brasil. Se não no sentido que a esquerda costuma dar à palavra, confundindo progressismo com esquerdismo, pelo menos na acepção mais geral: quase sempre apoiaram o progresso. Eis uma diferença importante, por exemplo, com seus colegas da Argentina.
O novo ministro da Coordenação Política, Tarso Genro, escreve hoje sobre outro assunto na Folha de S.Paulo. De passagem, diz que João Goulart foi derrubado mais pelos seus méritos do que pelos seus defeitos. Li essa tese pela primeira vez, se não me engano, num livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira, “O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil (1961-1964)”. Gosto dela. Por mais equívocos que Jango tenha cometido, seu pecado indesculpável para a direita foi apontar a proa do governo para os mais pobres, com as reformas de base. Elas eram tão necessárias que o primeiro presidente do ciclo militar, marechal Humberto de Alencar Castello Branco (foto), acabou fazendo o Estatuto da Terra, pilar fundador da moderna reforma agrária no Brasil.
Acho que o problema de Jango foi dar ouvidos aos que pediam as reformas “na lei ou na marra”. Quem acabou retirado do poder na marra foi ele próprio. Uns concluíram que isso representava o “colapso do populismo” no Brasil e decidiram enveredar pela luta armada. Penso que se encontra aí a raiz histórica e política do petismo (a raiz social do PT é São Bernardo, é Luiz Inácio Lula da Silva). Outros entenderam que o colapso não havia sido do “populismo”, mas da democracia, arruinada pelo sucessivos descuidos com ela, e que se tratava de juntar todo mundo que, em princípio, estivesse a favor de restabelecê-la para sempre.
Aliás, poderíamos aproveitar a efeméride de 64 para fazer um pacto: proponho abolir o uso da palavra “populismo” como categoria histórica nos nossos debates. Ao se prestar a quase tudo, o termo acaba não explicando quase nada. Se desaparecer, não vai fazer falta. A expressão serviu e serve apenas para amalgamar essa aliança espúria entre a esquerda e a direita que têm horror às origens trabalhistas do moderno protagonismo operário e popular no Brasil.
Infelizmente para os socialistas e os comunistas, eles escolheram ficar fora da Revolução de 30. E, como já advertira o Conselheiro Acácio, as conseqüências vieram depois. A quem se interessar pelo assunto sugiro ler “O Imaginário Trabalhista - Getulismo, PTB e cultura política popular: 1945-1964”, de Jorge Ferreira, editora Civilização Brasileira.
Alguns não compreendem o porquê desse ódio acumulado e aparentemente inesgotável entre o PSDB e o PT. Não é tão difícil assim entender. É um pouco como as guerras entre sérvios e croatas e entre judeus e palestinos. Quando se odeiam, irmãos o fazem a taxas bem mais elevadas do que seria razoável. As duas legendas têm origem antigetulista. Nasceram da negação, respectivamente, dos dois vetores políticos que carregavam a marca de Getúlio Vargas: o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro.
A aliança entre o PSD e o PTB garantiu para o Brasil duas décadas de democracia no pós-guerra. Quando se rompeu, abriu as portas para o golpe de 42 anos atrás. Depois, refeita no velho Movimento Democrático Brasileiro (MDB), permitiu a aglutinação das forças que acabaram construindo a ponte que nos transportou de volta à democracia com Tancredo Neves e José Sarney.
Lembro bem de que no governo Sarney o PMDB se deixou demolir por uma campanha permanente e brutal para estigmatizá-lo como legenda fisiológica e invertebrada, a antítese do partido ideológico de que supostamente precisávamos para sermos um país moderno, mais parecido com os do Primeiro Mundo.
Essa conversa deu em Fernando Collor. Depois, tentaram desmoralizar Itamar Franco, o da “república do pão-de-queijo”. Sabe-se hoje que Itamar só escapou da guilhotina quando, sabiamente, aceitou colocar Fernando Henrique Cardoso no ministério da Fazenda.
Impossibilitado de aliar-se com o PT, FHC foi original. Como não podia refazer a aliança PSD-PTB, cooptou a União Democrática Nacional (UDN). Juntou o PSDB com o PFL e o PMDB e deu-nos oito anos de estabilidade política e econômica. Meus amigos petistas e comunistas não gostam que eu diga, mas só isso já colocaria o sociólogo tucano na galeria dos grandes presidentes da História do Brasil. Galeria que terá também Luiz Inácio Lula da Silva, se o metalúrgico tiver a habilidade e a sabedoria de recompor (compor) a aliança com o PMDB e completar bem o seu período de quatro (ou oito) anos.
Aí o ciclo estará fechado. Todas as forças políticas ponderáveis terão passado pacificamente pelo poder no Brasil, e pelo voto. Seremos enfim uma democracia totalmente funcional. Estarão realizados os melhores sonhos de nossa juventude. E cada um de nós poderá, finalmente e com a ajuda de Deus, cuidar da vida e envelhecer em paz. Não mais fará diferença de que lado tenhamos estado em 31 de março de 1964.
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