O PNDH é uma demonstração de autoconfiança do PT? Ou é a admissão da dúvida sobre o futuro?O governo de Luiz Inácio Lula da Silva vai entrando, por vontade e iniciativa próprias, numa zona de turbulência política. Governos ingressarem em turbulências é comum, mas o momento politicamente instável da administração do PT tem originalidade: foi 100% autoconstruído.
Tudo vinha aparentemente sob controle. A popularidade do presidente anda lá em cima, desestimulando e mesmo intimidando a crítica. A economia não é uma brastemp, mas o otimismo em relação ao futuro é forte, assim como a confiança em sua excelência. Internacionalmente, Lula é sucesso de público e crítica. E nos círculos em que a corrida presidencial entrou no radar acredita-se que Dilma Rousseff vem fortíssima, com o presidente a tiracolo pedindo ao povo que dê um voto de confiança e aposte na continuidade.
Seria lógico que num quadro teoricamente tão favorável os estrategistas do Palácio do Planalto buscassem, na política, fixar-se no que ajuda a acumular musculatura no ano eleitoral, deixando por enquanto de lado o que pode criar problemas. Tempo de eleição é tempo de fazer contas. Especialmente as de somar e multiplicar. Quando você precisa buscar votos, desloque-se para o ponto mais próximo possível do centro - sempre tomando o cuidado de não descolar da base.
Isso não é teoria. Lula chegou à Presidência assim. E na economia Lula executa o centrismo de maneira até compulsiva.
Uma síntese curiosa sobre o PT é que, na política, o partido "fez tudo errado e acabou dando tudo certo". Não dou o crédito porque o autor não autorizou. Ele não é do PT. O que é "tudo errado"? Desde o nascimento, a legenda preferiu apostar sempre na disputa, mesmo quando a composição parecia ser o caminho politicamente mais sábio. E apesar disso "deu certo", chegou ao poder, eclipsando outras correntes de esquerda que propunham algo menos "radical".
O PT viciou-se em disputar. Mesmo havendo sinais suficientes de que essa obsessão pelo confronto e o exclusivismo acabam trazendo isolamento e fraqueza. Em dois estados importantes nos quais já foi muito forte, Rio Grande do Sul e São Paulo, a legenda tem dificuldade para sair do cercadinho. No estado mais expressivo que governa, a Bahia, abriu um grave contencioso com seu mais importante aliado, o PMDB, o que coloca algum risco ao projeto local de poder.
O PT chegou à Presidência da República, mas dos partidos que ancoraram no Planalto foi quem menos conseguiu aproveitar para estender sua capilaridade. Lula está nas nuvens, o PT deve vir com um bom desempenho este ano, mas será uma surpresa se avançar significativamente nos estados - com o óbvio efeito na composição do Congresso.
Daí que o "tudo certo" deva então ser observado com mais cuidado. O jogo não acabou. O PT chegou ao governo, mas sem força, na política ou na sociedade, para aplicar seu programa. Agora está colocado diante do enigma.
Para continuar de posse da caneta, a sigla precisa reproduzir de algum modo a coalizão social que elegeu Lula em 2002 e 2006. A estrutura da sociedade brasileira não mudou radicalmente de sete anos para cá.
Mas o PT também tem o desejo de, no poder, cumprir o que considera sua missão histórica. Fazer o Brasil transitar para um cenário em que o direito à propriedade se subordine à chamada função social desta e a democracia representativa divida espaço com a chamada "participativa". São ideias vagas, nunca detalhadas. Eufemismos. Até porque, convenhamos, desde que o PT é governo nunca mais discutiu internamente política, na acepção da palavra.
Há uma tensão entre desejo e realidade. E entre a vontade de se manter no poder - como premissa - e a obrigação de fundamentar moralmente o próprio desejo.
À luz da lógica, os movimentos do governo e do PT em torno do
Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído por decreto pelo presidente da República, fariam sentido em duas situações: 1) se o PT tivesse força para tirar do papel esse "programa da revolução brasileira" ou 2) se o PT estivesse tão fraco que, à beira de sair do poder, quisesse reafirmar seus princípios diante da História. Afinal, a luta continua. Sempre.
A primeira hipótese carece de materialidade. A segunda nada tem a ver com o otimista discurso oficial. E muita gente se envolveu, muita energia foi investida para que tudo possa ser resumido a uma trapalhada. Ainda que a possibilidade sempre deva, por cautela, ser vista com carinho quando se analisam governos.
Mas há uma última explicação, algo mais sofisticada. Talvez o PT acredite ser capaz de segurar votos à esquerda se puder dizer "pelo menos nós tentamos". E talvez acredite dispor dos instrumentos materiais e estatais para contornar possíveis sustos e evitar a corrosão ao centro.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (10) no Correio Braziliense.Deseja perguntar-me algo?Leituras compartilhadastwitter.com/AlonFeuerwerker
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