Um poço de bom senso (28/02)
Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando insinua, sem muita sutileza, que falta coragem a Barack Obama para levantar unilateral e incondicionalmente o bloqueio a Cuba. Lula estaria ainda mais coberto de razão se completasse o raciocínio. Pois tal coragem é a mesma que inexiste nos irmãos Raúl e Fidel Castro para convocar eleições livres e multipartidárias na brava ilha caribenha.
Mesmo em escalas muito diferentes, a modalidade de valentia que nosso presidente propõe ao colega americano é do tipo que ele, Lula, precisaria juntar para atualizar os índices de produtividade no campo, para impedir que os bancos cobrem 10% ao mês no cheque especial -quando remuneram o poupador a uma taxa dez vezes menor e quando a inflação está em 4% ao ano- e para dar um jeito no absurdo que pagamos ao falar no celular, recorde mundial.
Vejam que escrevi “do tipo”. As coisas para as quais, numa analogia, parece faltar coragem a Lula são menos complexas e difíceis do que o imbroglio entre Cuba e os Estados Unidos, e mesmo assim a administração do PT, rumo a oito anos na cadeira, não encontrou ainda força suficiente para completar a missão. É dura a vida de quem governa. Ninguém faz só, e sempre, o que quer.
As decisões governamentais são resultado da soma de vetores. O líder é expressão dessa resultante vetorial. É ele e suas circunstâncias. Quando sai da linha e ultrapassa as fronteiras do equilíbrio político, corre o risco de ser politicamente degolado. Governantes não devem ser necessariamente corajosos. Melhor serem sábios, e excesso de coragem nunca foi sinônimo de sabedoria.
Sobre isso, o congresso recente do PT e as entrevistas nos últimos dias de líderes do partido, do presidente da República e da candidata ao Planalto são arquetípicos. É um festival de panos quentes. Um poço de bom senso. Falta coragem para enfrentar o "mercado"? Talvez sobre inteligência.
A lamentar, apenas que Lula, o PT e o governo brasileiro contribuam pouco para o fim do impasse entre Havana e Washington. Cuba quer ser tratada como país normal. E os Estados Unidos pedem que Cuba se reorganize politicamente, para permitir a transição rumo a um estado de direito democrático.
A linha brasileira tradicional na abordagem do assunto era conhecida, desde pelo menos um quarto de século. A política interna de Cuba é tema dos cubanos, e não é razoável que os Estados Unidos se metam na vida dos ilhéus. Acontece que os americanos se comportam ali mais ou menos como nós e a Venezuela gostaríamos de agir em relação a Honduras. Com uma única diferença: eles têm força para ir além do discurso e praticar de fato a ingerência.
Já que nosso manual de não intervenção foi arquivado pelo Itamaraty na nova fase, talvez seja o caso de transformar também este limão numa limonada. É inexplicável que o Brasil se candidate a mediar um conflito no qual pouco ou nada pode influir, lá longe no Oriente Médio, e se omita na busca de uma solução negociada aqui perto, entre cubanos e americanos.
Até porque a saída possível, para atender a quem advoga mudanças estruturais em Cuba, é óbvia. Que tal um cronograma de transição? Poderia começar pelo fim do bloqueio e terminar em eleições livres, fiscalizadas pela ONU (quem sabe com tropas brasileiras, como no Haiti?), nas quais o Partido Comunista teria todas as condições de lutar nas urnas para continuar no poder.
O que poderia impedir o governo brasileiro e o PT de irem por aí? O medo de perder influência política e econômica junto aos atuais dirigentes cubanos? Não se faz omelete sem quebrar ovos. E se Cuba enveredar por um caminho de progresso e crescimento acelerados as oportunidades para o investimento brasileiro serão ainda maiores do que as já apetitosas de hoje. Desde que não repitamos o erro de Honduras, desde que apostemos no cavalo certo.
O PT tampouco enfrenta obstáculo ideológico intransponível para apoiar esse script. Em artigo que fizeram publicar na Folha de S.Paulo na passagem dos 30 anos da sigla, o novo presidente do PT e seu antecessor registraram o aniversário de “um partido democrático, popular e socialista que soube unir setores diferentes da esquerda democrática”.
Autodefinido como partido da “esquerda democrática”, conceito que na lógica e na política só existe em oposição a uma “esquerda não democrática” (ou o adjetivo seria redundante), o petismo certamente estará confortável no apoio à abertura política em Cuba.
Ou não?
Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (28) no Correio Braziliense.
Deseja perguntar-me algo?
Leituras compartilhadas
twitter.com/AlonFe
youtube.com/blogdoalon
Assine este blog no Bloglines
Clique aqui para mandar um email ao editor do blog
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo






