A melhor defesa é atacar
Alon Feuerwerker
Correio Braziliense, 31 de julho de 2005 - Enquanto a oposição discute se tenta ou não encurtar o mandato do presidente por causa das acusações de corrupção político-eleitoral, Luiz Inácio Lula da Silva decidiu dobrar a aposta: reorganizou sua administração e interveio no Partido dos Trabalhadores, com o objetivo bem definido de disputar e ganhar a eleição de 2006. Ele avalia que ficar na defesa, só resistindo, poderia inviabilizar o governo. E acha que não dá para retomar a iniciativa sem investir num projeto consistente de reeleição.As recentes aparições públicas de Lula com jeito de campanha eleitoral são somente a face visível da estratégia. Para chegar a essa conclusão, o Correio Braziliense conversou ao longo da semana com uma dezena de interlocutores diretos e indiretos do “funcionário público número um”, como ele mesmo gosta de se definir.Lula tem evitado falar sobre o escândalo, até em seu círculo mais íntimo. Quando se refere ao assunto, mantém a convicção de que o anabolizado caixa 2 da dupla Delúbio Soares e Marcos Valério não toca nele. Disse isso aos dirigentes da União Nacional dos Estudantes (UNE) que estiveram no Palácio do Planalto sexta-feira. O chefe do Executivo tem lá razões para pensar assim: em Minas Gerais, o próprio Valério já confidenciou a amigos que é perda de tempo tentar achar conexões diretas suas com o presidente.Para o Planalto, evitar o impeachment é necessário, mas não suficiente. A cúpula do governo sabe que precisa de instrumentos políticos para enfrentar a tática oposicionista do “apodrecimento” progressivo, como preconizou o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN). Ou a “sarneyzação sem inflação”, como alertou no Correio do último domingo o cientista político Carlos Pio, da Universidade de Brasília. É o cenário da “economia preservada”. Isto é, um governo refém da oposição, fraco, paralisado e sem iniciativa.E nada melhor do que a perspectiva de mais quatro anos no poder para curar feridas, manter os velhos aliados, atrair novos, superar a crise e recuperar a capacidade de ação política. Para governar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa mais que nunca do candidato Lula. Pode-se criticar o presidente. Mas é inegável que ele está tomando as providências para se proteger e robustecer o Lula-2006. Abaixo, algumas delas.
Movimentos estratégicos
Severino Cavalcanti ficou mais importante e mais forte. A Câmara dos Deputados é quem resolve se uma denúncia por crime de responsabilidade contra o presidente da República vai em frente ou para o lixo. Na prática, quem decide mesmo é o presidente da Câmara. Se ele mandar arquivar a denúncia, o plenário pode revogar a decisão. Mas é o próprio Severino quem determina a pauta de votações do plenário. O novo ministro das Cidades, Márcio Fortes, foi indicado por Severino. Em 2006, o ministério das Cidades vai distribuir a governadores e prefeitos mais de R$ 500 milhões em emendas individuais de deputados e senadores. Isso é 25% de tudo que o governo tem para executar em emendas parlamentares individuais. Severino fortalecido também ajuda Lula-2006 a ter o PP mais perto de si.
O PMDB foi finalmente atendido. O PMDB é o fiel da balança na Câmara. O ministério da Saúde controla metade de todo o dinheiro que a União pode gastar em custeio e investimentos. O PMDB indicou o novo ministro da Saúde, o deputado federal Saraiva Felipe (MG). Este ano, a Saúde vai repassar a Estados e municípios outros 25% de todas as emendas individuais do orçamento, quase R$ 600 milhões. Por lei, o ministério da Saúde tem uma grande autonomia financeira. Ali, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, manda menos que nos outros prédios da Esplanada. E Minas Gerais é o fiel da balança no PMDB, que além de Saraiva indicou o senador mineiro Hélio Costa para as Comunicações. Bom para Lula-2006.
Tarso Genro recebeu a missão de unir o PT, que vai um pouco para a esquerda. Lula mandou o presidente provisório do PT evitar que a eleição interna marcada para este ano se transforme num ajuste de contas entre a oposição de esquerda e o Campo Majoritário, corrente que comanda o partido. A idéia é uma parte da esquerda apoiar o candidato de um Campo renovado, o próprio Tarso. Em troca, recebe a garantia de participar ativamente das decisões partidárias. Tarso tem dito que o partido deve apoiar o governo, mas não se confundir com ele. É o melhor dos mundos para todos: o PT se desloca um pouco para a esquerda, para não se dividir, mas o governo fica onde está. E a massa petista ganha um discurso para se manter alinhada a Lula-2006.
Jaques Wagner recebeu a tarefa de desbloquear a agenda no Congresso. Lula combinou com Severino tentar retomar as votações esta semana, na reabertura dos trabalhos legislativos. A prioridade são as reformas política e tributária. Sexta-feira o presidente lançou o projeto de reforma universitária. O ministro das Relações Institucionais tem a missão de evitar que as Comissões Parlamentares de Inquérito monopolizem as atividades do Legislativo. Trabalha também para não deixar que a base governista se pulverize sob o fogo cerrado da oposição e das ameaças de cassação. Impedir que a base se disperse é vital para manter aberta a possibilidade de uma ampla aliança em torno de Lula-2006.
Antonio Palocci não pode deixar a economia sair dos trilhos. No primeiro semestre, União, Estados, municípios e estatais economizaram R$ 60 bilhões para pagar juros. Este superávit primário é quase 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB), mais de dois pontos percentuais acima da meta de 4,25%. A taxa básica de juros continua nas nuvens. Mas o resultado veio: a inflação, que ameaçava explodir a meta, começa a apontar para algo pouco acima de aceitáveis 5%. O forte aperto fiscal e monetário desacelerou a economia. Mas os analistas ainda projetam um crescimento que pode ficar entre 3,5 e 4% no ano. Sem economia estável, não tem Lula-2006.
Vai sobrar dinheiro para os programas sociais. O superávit exagerado no orçamento do primeiro semestre permite uma certa folga daqui até o final do ano. A ordem é investir fortemente na área social. O Bolsa-Família deve chegar a dezembro com quase nove milhões de famílias cadastradas, quase quarenta milhões de pessoas. Os investimentos em 2005 vão somar quase R$ 7 bilhões. Lula espera enfrentar a eleição com onze milhões de famílias no programa, quase 30% da população brasileira. A reforma agrária será outro foco de atenção. Os projetos sociais e de transferência de renda serão oferecidos ao PT e aliados como uma grande bandeira de campanha para acompanhar Lula-2006. O último Datafolha mostrou que essas iniciativas voltadas à população mais pobre são o principal alicerce dos índices de aprovação do presidente.
Os trunfos
Lula está certo de que terá “garrafas para entregar” no próximo ano, como afirma um ministro. Em seu governo, o PIB terá crescido 65% em dólar, de U$ 460 para U$ 760 bilhões. O PIB per capita terá superado a barreira dos U$ 4 mil, contra U$ 2,5 mil ao final do mandato de Fernando Henrique Cardoso. A inflação terá sido reduzida. O IPCA terá caído de 12% para 5%. O IGP, de 25 para 7%. O dólar terá baixado de R$ 3,50 para R$ 2,70. As exportações terão dobrado, de U$ 60 para U$ 120 milhões. Em quatro anos, o superávit comercial com o exterior terá acumulado quase U$ 125 bilhões. A conta corrente, U$ 25 bilhões. Terão sido criados em seu governo mais de cinco milhões de empregos com carteira assinada, e quase outro tanto de informais. O salário-mínimo em dólar também terá dobrado. Estes números não vêm do governo. Representam a média das projeções dos analistas das principais consultorias brasileiras.O presidente acredita ter o que dizer na campanha eleitoral. Antes, entretanto, precisa dar um jeito de chegar lá.






