Etiqueta de validade (13/10)
É visível um certo cansaço com certa política, mas qual será a tradução da fadiga na vida real? Como será nas eleições? É razoável supor que ou essa energia será canalizada partidariamente ou vai dissipar-se
É humano certo deslumbramento com os movimentos ditos espontâneos. Eles adicionam glamour à política, pelo contraste com a crueza da realidade dela olhada sem filtros, em estado bruto. Das manifestações contra a corrupção Brasil afora até a “ocupação” de Wall Street.
O problema é que se movimentos de massa são bons para criar estados de espírito, e mesmo para bloquear parcialmente a capacidade de intervenção do Estado, como agora no Chile, não estão porém aptos a governar. A utopia do democratismo direto costuma virar do avesso quando tenta passar da fantasia à realidade.
Governar é trabalho para minorias, profissionais organizados em facções, partidos políticos. Que irão realizar a cada momento os projetos supostamente apoiados pela maioria, mas não será o governo da maioria. Será o governo segundo o suposto desejo da maioria, mas operado por uma máquina política dedicada.
Espertas são as máquinas políticas que se abrem aos movimentos sociais para alimentar-se da energia deles, mas é uma operação necessariamente datada, com vencimento.
Pois uma vez no poder a tendência se inverte e o Estado passa a usar os instrumentos tradicionais — da repressão à cooptação — para reduzir o caos, diminuir a desorganização da sinfonia.
Pode não ser muito animador, mas assim é a vida. Desde quase os primórdios. Por razões práticas. Quem ocupa as horas do dia na luta pela sobrevivência não tem como se dedicar às atividades de governo. Daí nasce a necessidade de mecanismos especializados e dedicados.
Podem ser sacerdotes ou nobres. Ou militares. Nas sociedades modernas nasceram os parlamentos, as eleições periódicas. A essência é sempre a mesma. Organizar a rotina para que a sociedade sobreviva, produzindo e reproduzindo-se em ciclos periódicos.
Daí que movimentos precisem, em algum momento, buscar sua tradução na política organizada. Nos anos 70 do século passado o sindicalismo ascendente buscava expressão partidária e o então MDB (antecessor do PMDB) ofereceu guarida. Mas Luiz Inácio Lula da Silva preferiu, após algumas experiências, trilhar o próprio caminho.
Os resultados são conhecidos.
Ontem um punhado de cidades foi novamente palco de protestos contra a corrupção, um processo que vem se desenvolvendo à margem dos partidos. Pois todos eles são de alguma forma governo. Não têm como se apresentar ao distinto público vestidos de branco imaculado.
E é natural que os manifestantes procurem apartar-se de alinhamentos partidários. Uma boa estratégia. Já ensinava Muhammad Ali: flutuar como uma borboleta e picar como uma abelha. Se se abrirem à participação organizada de partidos, transformar-se-ão em alvo fixo.
Do jeito que está, o máximo que os contramanifestantes conseguem é tentar azucrinar pelas redes sociais. Tentar ridicularizar. Uma certa confissão de impotência. E também de alguma perda de sensibilidade. E, episodicamente, de boçalidade.
Mas e os resultados? O movimento pede mudanças legislativas e reforço das atribuições de órgãos de controle. Tudo bem, mas será suficiente? As instituições não existem no éter. Quem as opera é o Estado, comandado por um governo.
É visível certo cansaço com certa política, mas qual será a tradução da fadiga na vida real? Como será nas eleições?
É razoável supor que ou a energia será canalizada partidariamente ou vai dissipar-se diante da resistência, ou da inércia, das máquinas políticas estabelecidas, aliás muito bem estabelecidas. Especialmente as governistas.
Será?
A descoberta de um complô iraniano para matar o embaixador saudita em Washington tem tudo para introduzir de vez o assunto na eleição americana do ano que vem.
Ou bem a acusação é falsa, e aí será a desmoralização dos serviços policiais e de inteligência dos Estados Unidos, ou as pressões para que a Casa Branca contenha definitivamente o Irã nuclear vão subir exponencialmente.
Barack Obama tem a cabeça de Osama bin Laden na parede como troféu. Mas será suficiente?
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (13) no Correio Braziliense.
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3 Comentários:
"Lumpenproletariat",esse palavrão germano marxista,assalta-me,cada vez que tomo conhecimento dos "movimentos espontâneos sem lideranças",que brotam pela rede.Em que pese o esforço da mídia,em incrementar números, dimensões,conteúdos e slogans.Assiste-se o confronto entre "wishful thinking" X realidade.
Melancólico constatar que a manifestação postiça é menos pior do que do que os conceitos éticos,motivações políticas e substrato ideológico expressados pelos seus participantes,individualmente.
Os franceses chamavam a esses ,de "la bohème",longe de significar,literalmente "homens trapo",do filóso,apenas ,uma massa difusa,errática,nos objetivos e nas razões.
Obama foi deposto! E, ainda não o informaram.O temido "Dominó",da "guerra Fria", mudou de lado .
Sua geografia sem sutilezas,porque o tempo urge,abrange,neste momento, desde o Mediterrâneo até o mar Cáspio.
Enquanto as turbulência domésticas,causa e efeito, das insatisfações entre simpatizantes e aliados,exigem demonstrações de que o comando se mantém incólume.Enquanto que diplomacia praticada pelos EUA varia entre o rústico e o tosco ,desde antes do "Big Stick".O tempo, apenas a aperfeiçoou.
1) Obama foi eleito presidente dos EUA. Não de algum grêmio de segundo grau em qualquer lugar do mundo. Será que houve quem pensasse ser Obama burro? A ponto de destruir o poder do seu próprio país? Como de burro ele não tem absolutamente nada, os que se julgaram inteligentes, colando em Obama desde o início, estão saindo de fininho.
2) Não importa o número de participantes das manifestações públicas contra a corrupção. O que importa é que o medo acabou. Um só já seria ótimo. Milhares, já dão outro foco. Logo logo, ninguém mais vai sentir-se temeroso de ser rotulado de politicamente incorreto ao dissociar corrupto e criminosos em geral, de categoria social, de cor, de raça, de gênero e outras baboseiras. Afinal, corrupto é bandido.
3) Ou seja, ninguém mais vai sentir-se culpado por considerar caixa dois crime grave. Ou por deixar de generalizar e deixar de dizer que a corrupção está no DNA do Brasil e que todo mundo faz.
4) Os corruptos são criminosos e já tem quem os trate por esse nome, diga-se, correto e direto. E os corruptos não são a maioria dos cidadãos. Eles são uma parcela identificável e punível. Já estão começando sentir medo da sirene do camburão. Daqui a pouco começarão a correr.
5) Alvíssaras.
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